Arquivo da tag: 2011

2010 × 2011

SÃO PAULO | Não é preciso que 2011 termine para se concluir que se trata de uma temporada avessa à do ano passado. A combinação do KERS com os pneus de rápido desgaste da Pirelli e a asa traseira mexeram com as corridas e trouxeram disputas intensas e fizeram da maioria das corridas algo prazeroso de se ver. No entanto, o vencedor costuma ser sempre o mesmo. Em 2010, a disputa do título foi o ponto alto, mas é difícil vir à mente os melhores momentos das provas.

Como a F1 tem se preocupado muito em ouvir o público e proporcionar uma relação mais intimista, é bem provável que já tenha resultados concretos de que o povo prefere. Eu sou bem mais o que está acontecendo nesta temporada. O grande azar foi que a Red Bull fez um carro absolutamente impecável para um piloto que não só parece, como é impecável.

E o caro internauta, o que prefere, um Mundial à la 2010 ou como este de 2011?

Tags: , , , | 40 comentários

Constantinopla

SÃO PAULO | Os dois treinos de hoje na Turquia me fizeram ter a sensação — para usar um termo que Felipe Paranhos adora, principalmente quando um jornalista pergunta a um atleta, “qual a sensação da vitória”, “perdeu o pênalti deu que sensação”, “a sensação de largar na pole é boa” — de que 2011 é um divisor de águas na F1. Nos últimos 15 anos, pelo menos, quase 20, a maioria das gentes que assiste e venera a categoria sempre torceu por chuva para que as corridas tivessem mais movimentação e trouxessem resultados menos previsíveis. Mas com estes pneus da Pirelli que dissolvem como sabão em pó na roupa da dona de casa, parece que é mais interessante ver as alternâncias de posições em pista seca com os dois tipos de compostos, vide as etapas, principalmente, da Malásia e da China.

A chuva seria menos ‘fake’, hão de dizer, todos estariam em condições iguais. Não é tão verdade, assim. Há a variação entre intermediários ou ‘wets’, que se torna tão estratégico quanto apostar no macio ou duro. Na chuva, há de prevalecer o piloto sobre a máquina e o controle que tem no piso molhado. Vettel não o teve hoje, o que não significa que seja bração, muito pelo contrário. Mas o que quero dizer é que a chuva deixou de ser uma ambição porque as corridas em condições normais têm suprido sua ausência.  

Uns institutos ainda falam que pode chover na Turquia, então o primeiro treino pode servir para algo. Do contrário, põe só no anal da história que Alonso foi 2 segundos mais rápido que Rosberg. O segundo, sim, pista seca, asfalto anti-Anhembi, Button na frente e Alonso com uma pá de problemas hidráulicos. E Fernandito vem falar em passo à frente, tsc, tsc… Passo à frente, mesmo, deu a Mercedes, com Rosberg sempre pondo tempo em Schumacher. Não deve ser fácil ser Schumacher pós-Schumacher. Webber ficou em quinto e Vettel mal treinou pela batida no TL1, o que deve dificultar sua vida na luta pela manutenção na invencibilidade no ano em  poles. Aí chega amanhã, e Seb crava todo mundo. E é isso que vai acontecer, é o que diz Mãe Jatira.

Em que condições forem, Istambul/Kurtkoy deve receber (pela última vez?) uma corrida de alto nível. Se este é o melhor circuito desenhado por Tilke, e as corridas anteriores em suas pistas foram pra lá de boas, não há como pensar diferente.

Sauber e Force India vêm escalando o pelotão e já começam a encostar na Lotus Renault, que quer brigar com a Ferrari. Não que vá haver uma briga entre as quatro, mas isso demonstra como a casa de Maranello também tem lá suas coisas a arrumar. Toro Rosso continua um degrauzinho atrás e a Williams, coitada, tá perdida. Barrichello já tem entregado as fichas e já admitiu em entrevista à Folha que pode deixar a equipe de Grove, depois de falar que tudo precisa ser mudado lá dentro. Rubens tem seus altos e baixos na carreira, falou muita coisa errada e teve atitudes intempestivas e inexplicáveis, como todo mundo tem, ressalte-se, mas não se pode questionar seu valor como piloto. Passar 15 ou 16 corridas de martírio numa casa como a da dona Kimiko, Ke-Miko, sei lá o nome daquela japa que participou do programa do Hulk, é tudo menos o que RB precisava nesta fase da carreira e da vida.

Talvez seja melhor sair que Barrichello saia, mesmo. Porque a casa da dona Kimiko, a gente nota, é muito difícil de pôr em ordem.

Siga-me no Twitter.

Tags: , , , , , , , , | 10 comentários

Austral, 5

SÃO PAULO | Dois dias de treinos já deixaram bem claro que nenhuma equipe tem carro para fazer frente à Red Bull — mais especificamente, ao de Sebastian Vettel. Só uma hecatombe, como asas-barreiras ou um anti-Kers, seriam capazes de tirar a vitória do alemão na corrida que tem início às 3h (de Brasília), depois do que fez no treino classificatório deste sábado (26) na Austrália. E como o RB7 tem sido avassalador em seu domínio, o que o paddock da F1 começa a especular é o que os taurinos têm de tão diferente em relação aos demais.

Duas vertentes começam a ter uma base, que envolvem exatamente asas e o Kers. A primeira não é recente e já causou certo alvoroço no ano passado: apesar de todos os testes que a FIA conduz para que não haja mobilidade da asa dianteira, a peça da Red Bull é ‘leve’, principalmente em curvas de alta velocidade. A segunda seria uma sacada de gênio do projetista Adrian Newey: um dispositivo que acumula energia só para largadas.

Como explicou o engenheiro Ricardo Divila no especial apresentado pelo Grande Prêmio na última quarta-feira, “há uma regulamentação mais rígida do separador de ar (splitter) dianteiro inferior para evitar que o carro possa andar mais baixo. Isso é testado com pesos regulamentares, não permitindo uma variação de mais de 5 mm quando uma forca vertical de 200 kg for aplicada verticalmente em três pontos do separador — no centro, a 380 mm atrás do centro da roda dianteira e em dois pontos a 100 mm de cada lado”. Numa linguagem mais coloquial e menos técnica, não deve vergar e pronto.

Mas algumas fotos já mostram que, como aconteceu no GP da Hungria do ano passado, a parte frontal da Red Bull apresenta uma leve flexão. Considerando o suporte da asa dianteira, a parte da frente inclina e chega bem próxima ao chão. Quanto mais perto do solo, maior a vantagem aerodinâmica.

A outra suspeita, não confirmada pela Red Bull, está no Kers, que nada mais é que um acumulador de energia recuperado dos freios, no qual normalmente seria dissipado em calor, que pode ser reutilizado na fase de aceleração. Para Divila, a peça tem seu lado ruim, mas é imprescindível. “Todo esse sistema tem sua penalidade no peso adicional (entre 20 e 30 kg), problema resolvido pelo aumento do peso mínimo de 620 para 640 kg, mas os dois outros problemas, o de aumentar a altura do centro de gravidade e a redução do lastro utilizado anteriormente para equilibrar o centro de gravidade no sentido longitudinal pelo jeito ainda não foram bem resolvido pelas equipes”, declarou. “O Kers não é obrigatório, mas poucas equipes vão abrir mão da vantagem de aceleração nas largadas da corrida.”

Foi aí que Newey redescobriu a pólvora, criando um Kers ‘light’. Durante a transmissão do treino classificatório em Melbourne, ficou evidente que Vettel não apertou o botão referente ao sistema nem teve seu uso identificado pela arte gráfica que a FOM disponibiliza. Segundo o jornalista inglês James Allen, esse Kers de menor peso foi desenhado para funcionar apenas na largada para proporcionar aos seus carros a vantagem de 7 metros que os 80 cv a mais da energia acumulada dão. Assim, o que o RB7 leva em suas entranhas é uma bateria mínima, que será carregada na volta de apresentação antes da largada.

Vettel foi 0s7 mais rápido que a McLaren de Lewis Hamilton e 1s4 melhor que a Ferrari de Fernando Alonso. Acertar a largada, portanto, é meio caminho andado para que o alemão inicie a busca pelo bicampeonato do mesmo jeito que terminou 2010. É só apertar um botão e depois esquecer que existe. O resto, o filho concebido por Newey vai fazer por Sebastian.

Tags: , , , , , , , | 11 comentários

Austral

SÃO PAULO | Vou começar por baixo. Eu julgava desnecessária a volta da regra dos 107% à F1. Que um ano faria as nanicas aprenderem com seus erros, procurassem parcerias válidas e profícuas e engenheiros capazes de lhes darem 2s ou 3s nas pinceladas de seus projetos, sem precisar dos acertos dos pilotos. Agora vejo que foi providencial. O grid na Austrália vai ter 20 carros. E olhe lá se a Lotus não se cuidar.

A Hispania mal foi à pista. Seus carros, que muitos até duvidavam existir, eram legos esperando suas peças. Talvez tenham ficado partes da carenagem e pneus na alfândega em Melbourne. Karthikeyan ficou cinco anos fora da F1, rezou muito, visitou templos em Mumbai, voltou e viu que ainda tem pecados a pagar. Liuzzi paga o preço de um campeonato ridículo em 2010 pela Force India. Se ninguém comprar essa equipe, duvido que chegue ao fim da temporada. Picaretagem.

A Marussia, ainda Virgin, nascida Manor teimou em se afastar dos túneis de vento para apostar num carro totalmente feito por computador. Deve ter projetado esse MVR-02 num 486, só pode. D’Ambrosio tomou 2s7 dos tais 107%. Glock foi na mesma toada. Não vão achar tempo nunca, esqueçam.

Lá em cima, Vettel dominou o treino, Webber foi lá e tascou-lhe o primeiro lugar em sua volta final. O pessoal sentado na grama ali do Albert Park gostou. Aliás, imagino que Interlagos esteja propício para fazer o mesmo, ver gente em seu gramado extenso e infinito. Mas, rapaz, a Red Bull enfiou quase um segundo sobre Alonso. É muita coisa. E pior: parece bem próxima da realidade da F1. A Ferrari que brigue com a Mercedes e, vá lá, a McLaren.

Barrichello em quinto, belíssimo resultado, ali entre Rosberg e Button. Barrichello, velho de guerra, continua bom. Vai carregar a Williams nas costas para lutar contra os leões, mesmo. E a Williams tem de aproveitar esse momento de hesitação de equipes tipo McLaren e Renault para ir coletando pontos importantes. Já Massa foi o mesmo de 2010: escapadas, erros e muita distância para Alonso.

Sinceramente? A única coisa boa foi a transmissão em HD, um espetáculo. Não fiquei lá muito empolgado com o que vi em pista. Começo, tal, mas deixaram a F1 meio ‘fake’, com essa coisa de asa móvel e zona de ultrapassagem e Kers. Talvez esse pneu Pirelli que gera buracos vulcânicos como o Eyjafjallajokull e dissolve ao gosto de Bernie Ecclestone dê uma movimentada, mesmo. Senão essa Red Bull vai levar o título a galope.

Tags: , , , , | 19 comentários

O povo aposta

SÃO PAULO | Mercedes melhor que Ferrari e McLaren? Red Bull muito na frente das demais? Virgin e Hispania não conseguindo classificação no grid? Sauber e Toro Rosso vêm como surpresas? Corrida com chuva em Melbourne? Massa e Barrichello andando na frente ou pelotão intermediário?

É a hora dos palpites, meu povo. Mandem bala.

Tags: , , , , | 24 comentários

F3 Sudam

SÃO PAULO | Dias atrás em Curitiba eu conversava com Rafael Durante, que é o assessor da F3 Sul-americana, e ele me dizia do trabalho de Dilson Motta para resgatar a categoria e seu nome, que foi posto em xeque por conta das dívidas adquiridas na condução da categoria. Ao que parece, tudo já está devidamente pago. Acompanhemos, pois, como será aquela que deveria ser a principal série de fórmulas do continente, que tem início no fim de semana no Velopark.

A temporada terá as nove corridas de seu calendário realizadas aos domingos transmitidas ao vivo pela Rede TV!, e todas as 25 provas previstas para 2011 veiculadas em VT pelo Bandsports durante as semanas posteriores a cada um dos eventos, segundo o próprio Durante.

Tags: , , , | 7 comentários

Alta definição

SÃO PAULO | Devem estar todos pimpões e catitos com o retorno da F1 à vida, gente que programou a pizza para as 22h e pouco e tal. Mas o primeiro treino em especial vai ser interessante para todos porque será a primeira vez que a categoria será transmitida em HD.

O SporTV, que mostra os treinos livres em território nacional via assinatura, parabólica e cabo, já anunciou a exibição a partir de 22h30. O Ivan Capelli só demonstrou uma preocupação: ver a cara de Buemi em alta definição…

Tags: , , , | 4 comentários

As quatro apostas

SÃO PAULO | Reproduzo na íntegra o texto que escrevi para a primeira parte do especial da F1 do Grande Prêmio, para comentários e debate dos caros leitores:

É um exercício que parte de uma linha racional, baseado num fato que até pode ser considerado um tabu recente: desde 2007, a F1 só forma campeões inéditos. Evidente que, de Jerôme D’Ambrosio ou Narain Karthikeyan — que representam o que há de pior em termos de equipes — a Vitaly Petrov — o piloto de menor habilidade dentre os que estão numa equipe quase-grande —, não vai sair um novo nome para a história. Aí se analisa que só há duas chances, ainda que verossímeis: Mark Webber e Felipe Massa. Numa forçada de barra, encaixam-se outros dois: Nico Rosberg e Nick Heidfeld.

Curiosamente, estes dois grupos de opções apresentam membros de perfis semelhantes e carreiras ligadas. O primeiro tem o australiano Webber e o brasileiro Massa, de países continentais com histórico notável na F1, Brabham e Jones para um lado, Fittipaldi, Piquet e Senna para o outro, um sem ser campeão há três décadas, outro há duas. Quando Webber estreou em 2002 pela Minardi, lá estava Massa, também em sua primeira corrida, com uma Sauber. Os dois passaram muito perto do título: Webber o perdeu no ano passado na última prova e Massa, em 2008, na última curva. Acidentes marcaram as carreiras: a clavícula quebrada de Webber depois de cair de bicicleta foi decisiva para sua derrota em 2010; a mola que atingiu a cabeça na classificação do GP da Hungria tirou Massa de combate durante o resto da temporada de 2009. Inegavelmente bons, nem Webber nem Massa têm arroubos de pilotos fora-de-série, contudo, e diante de Vettel e Alonso, respectivamente, são vistos na maioria como segundões.

Em suma, aos olhos da F1, não deve ser fácil ser Webber ou Massa.

Rosberg e Heidfeld têm quase o mesmo nome — pelo menos, a mesma raiz. Os dois são alemães, Nick é oito anos mais velho e tem seis anos a mais de experiência que Nico, 11 a 5. Rosberg entrou no lugar de Heidfeld na Williams em 2006. Os dois voltaram a se encontrar na Mercedes no ano passado: o veterano parecia fadado a ser reserva, ao passo que o mais jovem dava muito trabalho ao ressurgente Michael Schumacher em treinos e corridas. Não é o mesmo número de voltas rápidas no currículo, 2, que os aproxima. Inegavelmente bons, nem Rosberg nem Heidfeld têm vitórias. E isso pesa um bocado. Ainda mais para Heidfeld, que outra vez estava à beira da aposentadoria de piloto titular e foi resgatado pelo infortúnio de Robert Kubica naquele malfadado rali.

Aí a gente mescla tudo: Heidfeld já foi companheiro de Massa. Rosberg, de Webber.

Os quatro têm em 2011 a meta de superar tudo que já ouviram de críticas e dúvidas sobre o que são capazes. Os quatro têm de se superar. E parece, mesmo, que 2011 é decisivo para os quatro. Há quem fale fortemente que será o último ano de Webber na Red Bull — principalmente o consultor Helmut Marko, desafeto de carteirinha do australiano —, que seria decerto o último de sua carreira. Rosberg não fez da Williams grande novamente e foi parar na Mercedes pós-Brawn. Bater Schumacher é algo para estufar o peito, mas não enche barriga nem garante emprego. Heidfeld ganhou a primeira chance de voltar pelas mãos de Peter Sauber no fim de 2010 e ganhou a segunda agora pela Lotus Renault. A terceira seria demais. E Massa precisa correr por este ano principalmente para apagar o que não fez no ano passado, sem as desculpas do retorno pós-acidente ou dos pneus que aqueciam mal, sempre ouvindo os rumores de que vai dar lugar a alguém.

Os quatro têm como rivais justamente os cinco campeões em atividade — Fernando Alonso, Lewis Hamilton, Jenson Button e Sebastian Vettel e esse Schumacher que beira o maniqueísmo da glória e da incógnita. Digamos que a tarefa dos quatro seja das mais duras. Digamos que a tendência, naquela linha racional, é que não consigam manter a sina da F1 desde 2007. Digamos, então, que os quatro partem para o começo da temporada daqui alguns dias inconscientemente com certo medo de seu fim

Tags: , , , , , , | 4 comentários

É Lotus e Renault

SÃO PAULO | Baixei aqui o aplicativo da F1 para iPod e pude verificar que a geração de caracteres da FOM para a TV não vai se imiscuir na pendenga entre as duas Lotus.

A coisa vai ficar do mesmo jeito que no ano passado: a Lotus Renault GP segue sendo definida como Renault, enquanto o Team Lotus será identificado como Lotus Renault.

Da mesma forma, a Virgin não levará Marussia antes de seu nome — estranhamente, diga-se. A Sauber perdeu, enfim, o BMW.

Tags: , , , , , , | 11 comentários

Receita de sempre

CURITIBA | Exatamente às 8h — se não houver atraso — de hoje, a Stock Car vai dar vida ao seu 33º campeonato, seguindo uma receita que leva basicamente os mesmos ingredientes dos mesmos anos: 12 etapas, playoffs com os dez melhores, corridas de 50 minutos, carros tubulares com bolhas e sem envolvimento das montadoras, mais de 30 inscritos, regra do rebaixamento e tal. A pitada final, sempre a gosto de quem faz, são as polêmicas, cerejas de um bolo que, para muitos desce seco, mas que quase para todos é imprescindível para que os pilotos deste automobilismo à brasileira se mantenham na ativa.

Por muito tempo a Stock bateu no peito dizendo que era a maior categoria do Brasil. De fato, com os campeonatos de monopostos sucumbindo ao longo dos anos 90 e a F-Truck dando seus primeiros passos para deixar de ser uma série de caminhoneiros, o então diretor-presidente Carlos Col levou seu produto à TV Globo e fez dele um grande negócio. Aos poucos, a Stock juntava veteranos do esporte com promessas sem recursos de seguir carreira de fórmula aqui e lá fora. Ingo Hoffmann e Chico Serra, intermináveis, passaram a disputar posição com Allam Khodair e o filho do segundo, Daniel, por exemplo.

Só que esta mescla de gerações foi se formando paralela à presença de um nome que deu outro contorno à Stock. De início, era o filho de Galvão Bueno, o narrador da emissora responsável pela transmissão das corridas, quem aparecia em 2002 no campeonato após vencer a então Light. E numa visão diferenciada dos demais: aquele piloto havia se proposto a fazer carreira no turismo. Aos poucos virou Cacá — mas para muitos, espectadores e colegas de trabalho, a sombra do pai sempre esteve inerente. Ótimo piloto e de personalidade forte, Carlos Eduardo, sem culpa, passou anos na berlinda das decisões dos dirigentes. Teve colega que, abertamente ou não, passou a dizer que a Stock era uma “F-Cacá”. O maniqueísmo de beneficiá-lo ou prejudicá-lo inegavelmente mexeu com a categoria. Mexeu com quem via e vivia.

“Concordo”, declarou Cacá diante da exposição da quase-tese. “Eu tenho de concordar porque chegou num ponto em que a própria categoria entrou na onda, no oba-oba de se preocupar demais comigo e com o que eu falo, se estava me beneficiando ou me prejudicando. Sei que sou um cara visível, tenho uma clara importância aqui dentro e tenho uma boa mídia por trás, por minhas opiniões e pelo que fiz na pista, mas eles têm muitas coisas para resolver do que se preocupar comigo, e aconteceu uma supervalorização do que eu represento. E houve críticas de vários pilotos sobre algumas coisas, ao campeonato e ao regulamento, mas eu só via o (Nestor) Valduga respondendo a mim, com palavras que até não gostei. Eu não sou e nem quero ser mais do que foram Paulo Gomes, Chico Serra e Ingo Hoffmann. Só quero que as coisas sejam claras e justas.”

Abalada, a Stock foi posta na parede. Passou-se a duvidar gradativamente se aquela era mesma uma competição de cartas marcadas. Ouve-se até hoje o eco das queixas de alguns dirigentes e pilotos — de campeonatos perdidos, outros ganhos com carros fora do regulamento, desclassificações e punições com pesos diferentes. A Stock foi perdendo audiência e, sim, credibilidade. Em vez de se reinventar, por exemplo, a Stock preferiu amordaçar quem dela ousasse falar mal e impedir seus pilotos de participarem de outras séries. Em vez de dar valor a si mesma, permitiu que a TV reduzisse seu espaço na grade de programação, até interferindo na duração das corridas. Em vez de procurar maior apoio montadoras, viu-se reduzida de quatro para duas — a parceira de nascimento Chevrolet e a Peugeot. Na contramão, os preços sempre subiram — e hoje 1/3 das equipes operam no azul.

Assim, a Stock chegou ao fim de uma década com um punhado de resultados contestados e um monte de gente questionando se os sacramentos dos comissários do CTDN/CBA tinham/têm cunho pessoal — e não só com o tricampeão Cacá, agora nem tanto visto num pedestal. Aliás, é difícil dissociar a Stock da CBA hoje. E a Stock olha ao lado e vê uma Truck com seis montadoras totalmente envolvidas na competição, levando mais gente aos autódromos — sim, também com o mesmo subterfúgio das torcidas ‘organizadas’, empresariais —, num período que o automobilismo brasileiro de forma geral se mostra em declínio.

Cacá já não vê esta queda, no caso da Stock Car. “Eu só não vejo declínio. Teve problemas de certo ponto até graves no ano passado — alguns até admitidos pela própria CBA, com declarações do presidente (Cleyton Pinteiro) de que haveria uma melhoria nos comissários. E gravíssimos no passado, de dois pesos e duas medidas. Mas a categoria está estruturada. Diferente de muitas pessoas, acho que a Stock está num bom caminho”, declarou. Mas há um ponto a ser destacado. “O problema é que a categoria ficou muito cara. Quando eu entrei, você fazia uma temporada com R$ 400 mil. Hoje custa cinco vezes mais.”

Apesar deste cenário, já que tem a Stock, que se vá de Stock. Da Stock com seus astros internacionais, que mantém os refugiados da F1 Luciano Burti e Ricardo Zonta, da Stock que repatriou Ricardo Maurício, Max Wilson e Átila Abreu, da Stock que se renovou ao abraçar Diego Nunes, Xandinho Negrão e, a partir deste ano, Alberto Valério, todos com passagem pela GP2, e o também estreante Tuka Rocha, e que promove as ascensões de Rodrigo Navarro, Denis Navarro e Eduardo Leite. Cacá é veterano diante destes. Mas seus nove anos na Stock não mudaram o que ela significa para Bueno. “Eu devo muito à Stock por tudo e a todos que passaram por aqui, por todos que tiveram importância na minha carreira”, declarou o piloto. “A Stock continua representando algo bom para mim, e gostaria que fosse maior e mais bem vista do que ela é. A Stock se moldou no automobilismo dentro do que era possível em sua época e continuou com essa linha. Estou satisfeito com o que ela é, e para mim ela representa o mesmo do que representava em 2002”, completou.

Felipe Maluhy entrou pouco depois de Cacá. O paulista, que já foi vice-campeão da Stock, em 2007, vê a entrada de pilotos jovens como algo natural. “É uma categoria profissional em que você consegue sobreviver e ganhar dinheiro, uma opção de trabalho para quem quer viver disso”, declarou ao GP. “A gente que está aqui há mais tempo tem de se esforçar cada vez mais para não perder um lugar para um novato. A molecada vem com vontade, e o entrosamento de pilotos experientes com os mais novos traz corridas mais interessantes”, completou o piloto, sete anos de bagagem.

E há os contemporâneos de Cacá, habitués da categoria como o campeão David Muffato, Valdeno Brito, Giuliano Losacco, Popó Bueno e Thiago Camilo. Como Duda Pamplona, 33. “Não estou velho, estou é experiente”, falou ao Grande Prêmio e riu. “Eu me sinto meio que um pioneiro na renovação porque eu fui um dos primeiros que vim pra cá saindo do fórmula, e aí que começou a aparecer essa garotada. Isso foi bom porque já faz pilotos que saem do kart pensar em correr de turismo e não só de monoposto”. Mas Duda tem uma outra visão sobre o valor da Stock. “Quando eu entrei, era só piloto. “Agora eu sou dono de equipe também”, comparou o chefe da ProGP. “É muito maior e uma responsabilidade em dobro”, e igualmente queixou-se dos altos custos. Maluhy resumiu: “A Stock Car é um estilo de vida, meu sonho e uma realidade.”

Um grupo de 29 pilotos vai tentar desbancar Cacá e a equipe RC, que tem dois pilotos campeões nos últimos três anos — Maurício em 2008 e Wilson no ano passado. Os outros dois que conquistaram título e estão na ativa vivem situações semelhantes. Losacco (2005) está em nova equipe, de novo. Depois de um ano na rebaixada Mico’s, encontrou abrigo na Hot Car de Amadeu Rodrigues. Muffato voltou para a Boettger, que o consagrou em 2003.

Pintam também com boas chances aqueles que vêm mantendo presença constante nos playoffs — a fase final, de quatro provas. Átila parte para mais um ano na AMG — que, aproveitando que o regulamento permite que só é necessário alinhar dois carros em dez etapas, só terá o sorocabano aqui na etapa de abertura em Curitiba. Serrinha continua na Red Bull. Depois de longos anos na Vogel, Camilo foi parar na RCM.  E Khodair — que disputou o título em 2010 e só não o levou por conta do próprio Thiago — ocupa o lugar deixado pelo rival.

O calendário segue limitado a 12 provas, muito em razão da parca quantidade de autódromos. Os circuitos em Pinhais — que é onde fica, na verdade, a de Curitiba — e de Interlagos vão receber duas corridas cada. A mutilada Jacarepaguá e a afastada Campo Grande resistem, bem como a nada cuidada pista de Brasília. Os pilotos vão às ruas em Ribeirão Preto e Salvador e ao curto circuito do Velopark. A única novidade confirmada é o retorno de Londrina. E Santa Cruz do Sul aparece com um asterisco porque a Stock espera a confirmação de uma eventual etapa na catarinense Penha, à margem do mundo de Beto Carrero. Destas provas, só cinco vão passar ao vivo na íntegra em TV aberta; as outras sete entram em ‘drops’, naquela cantilena que já foi citada acima.

A prova deste fim de semana é daquelas que só o espectador que vier ao autódromo e quem tiver TV por assinatura vai poder ver por completo — só a chegada será ao vivo. Ao menos, quem vir o vencedor cruzando a bandeirada terá a garantia de que será realmente ele o primeiro. É uma das novas regras da Stock Car, que resolveu trocar as punições que alteravam o resultado da prova por uma multa de R$ 100 mil. E quem insistir, reclamar, recorrer da multa e for julgado culpado novamente vai ser excluído do campeonato. Uma regra inconstitucional, claro, é até estranho que tenha sido homologada.

Mas é a Stock e a CBA.

Tags: , , , , , | 9 comentários

Festival de Patacoadas

SÃO PAULO | Continuando sua série interminável, ‘Festival de Patacoadas’, eis que saiu o regulamento da Stock Car 2011. Prefiro que os senhores e senhoras internautas, com sua incrível capacidade e compreensão, descontem alguns erros linguísticos e analisem alguns itens. Bater no mesmo bêbado não é legal.

Item: Número de carros e equipes participantes

No Campeonato de 2012 estarão elegíveis para participação, as 14 melhores equipes do Campeonato de Equipes 2011, mais as equipes Campeã e Vice Campeã do Campeonato Brasileiro de Stock Car 2011, que formarão um Grid de 32 carros e não serão autorizadas a ceder por empréstimo, locação ou qualquer outra forma, os direitos de participação no campeonato. Devendo as equipes serem operadas diretamente por seus proprietários

A equipe deverá ainda se comprometer a participar de todas as 12 etapas da temporada sendo que deverá se apresentar obrigatoriamente com dois carros em no mínimo 10 etapas, caso contrário perderá o direito de participação no campeonato de 2012 e será automaticamente uma das duas equipes rebaixadas para a temporada seguinte.

A partir de 15/12/2011 a Empresa Promotora poderá, a seu critério, convidar condicionalmente novas equipes para completar o Grid máximo, observando a ordem de classificação do campeonato Brasileiro de Equipes Stock Car 2011.

No caso da equipe Campeã do Campeonato de Equipes Stock Car 2011, estiver classificada também entre as 14 melhores Equipes da Stock Car V8 2011, seu direito de promoção passará para as equipes classificadas subseqüentes e assim sucessivamente.

Não será permitida a participação de mais de duas equipes que tenham vínculo de qualquer natureza, inclusive societária, técnica ou de espaço físico com uma mesma pessoa física.

Item: Penalizações

Pilotos não serão desclassificados depois de dada a bandeirada de chegada; a ordem de chegada dos carros não será alterada.

Na vistoria técnica realizada imediatamente após a prova, caso seja constatada alguma irregularidade técnica no veiculo, contrariando o Regulamento, o Piloto;Equipe terá que pagar uma multa no valor de R$ 100.000,00 (cem mil reais) para a organização do evento, valor este que será dividido entre todas as equipes.

O descrito no parágrafo acima não exime o Piloto/Equipe das penalizações previstas no CDA/CBA.

Além da penalização fiduciária, o piloto será penalizado em 30 pontos no total do campeonato.

O Engenheiro responsável, bem como o chefe de equipe, devidamente identificados no contrato de 2010 e 2011 com o promotor, serão suspensos nas duas etapas subseqüentes, mesmo que seja na temporada seguinte e terão suas credenciais cassadas sendo proibido seu acesso aos boxes.

O piloto / equipe penalizada, perderá ainda o direito a premiação da etapa caso tenha chegado em uma posição que lhe dê direito a tal.

Os pontos conquistados para piloto e equipe antes das penalizações não serão perdidos.

Parágrafo Único: Caso o Piloto/Equipe, recorra da penalização imposta, ao STJD/CBA e este confirmar a punição, o Piloto/Equipe serão excluídos sumariamente do Campeonato.

Punições desportivas deverão ser aplicadas durante a prova. Caso a punição seja aplicada faltando três voltas para o final, o piloto será punido com 20 segundos no seu tempo total de corrida.

Item: Doping

Os infratores e aqueles que se recusaram ao controle antidoping serão punidos de acordo com as normas FIA.

Siga-me no Twitter.

Tags: , , , | 25 comentários

Final no cassino

SÃO PAULO | Já é tarde da noite, e o jornalismo dinâmico apareceu. Lá vai: a Indy definiu que o encerramento da temporada 2011 vai acontecer em Las Vegas, em 16 de outubro. O oval da principal cidade de Nevada disputava com o superoval de Fontana a primazia da 17ª etapa do campeonato. O anúncio vai acontecer na próxima terça-feira.

A prova ao lado dos cassinos volta à Indy depois de uma ausência de 11 anos do calendário. Lá foram disputadas provas entre 1997 e 2000, cinco no total. Eliseo Salazar, vejam vocês, venceu lá sua única prova na categoria — e a última de sua gloriosa e brigada da carreira, que Piquet o diga. Na próxima terça também, a Indy deve explicar se a ideia de fazer um fim de semana de rodada dupla em Las Vegas está em pé para 2012. Mas aí haveria uma diferença: a prova do sábado aconteceria em um circuito de rua.

Pena é o California Speedway — onde estive em 2000 para ver a final da então Cart; o tempo tem passado rápido demais — ficar de fora. Um baita circuito daquele, palco de provas de 500 Milhas e tudo mais, perder para essa gente que curte correr e apostar, não necessariamente nesta ordem.

Taí a vitória de Salazar:

Tags: , , | 14 comentários

Os nomes dos modelos

SÃO PAULO | Tornato. E pelo que vi, esse janeiro foi meio escasso de notícias. Nada muito bombástico, revelador ou até mesmo atraente. Pelos lados da F1, a coisa começa a esquentar, mesmo, na sexta-feira, quando a Ferrari dá início às apresentações dos carros deste ano. Virou praxe o pessoal de Maranello ser o primeiro. Vai ganhar o dia pra si, já que muitas equipes marcaram para uma mesma data, 31 de janeiro e/ou 1 de fevereiro, o lançamento de seus modelos.

Aliás, eis abaixo os nomes dos carros desta temporada:

Red Bull | RB7
McLaren | MP4-26
Ferrari | F150
Mercedes | W02
Lotus Renault | R31
Williams | FW33
Force India | VJM04
Sauber | C30
Toro Rosso | STR6
Lotus | TL11
Hispania | F111
Marussia Virgin | MVR-02

Tags: , , , , | 1 comentário

Brasileirinhas do GT, 3

INTERLAGOS | Já era para ter rolado neste ano, mas em 2011 é certeza: a estreia da Copa Mercedes-Benz, que vai compor o esquema do GT Brasil.

O modelo da montadora alemã é o C250 CGI e só pilotos não profissionais, os tais ‘gentlemen drivers’, é que estarão aptos a correr pela categoria. Eu, que não sou muito gentil nas pistas, talvez seja impedido de disputar o certame.

O campeonato acompanha a temporada do GT Brasil e terá dez etapas, com duas corridas de meia hora em cada, uma no sábado e outra no domingo.

Os organizadores negociam a transmissão das provas de domingo com a Rede TV!. É isso.

Tags: , , , | 3 comentários

O paredão da Penske

SÃO PAULO | Já começam a vazar os rumores fortes vindos ali da Carolina do Norte que a Penske, independente do resultado que obtiver na temporada, pensa seriamente em voltar a ter apenas dois carros em 2011.  

Pássaro dos bons relatou ao Blog Victal que Ryan Briscoe está a perigo, pois. Nunca que Roger Penske vai pensar em dispensar Helio Castroneves, muito menos ousar deixar Will Power livre no mercado.

Briscoe, que evoluiu muito nos últimos dois anos de carreira, acabou perdendo um título que lhe era todo seu no ano passado, na prova em Motegi — quando, ao sair dos boxes, perdeu o controle do carro com os pneus frios e deu no muro interno do oval. Numa análise geral, seria o preterido dos três. 

Em três temporadas na Penske, Briscoe obteve sete vitórias e dez poles.

Tags: , , , , , | 15 comentários