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Desmancha


SÃO PAULO
| Meu Palmeiras, meu Palmeiras. Duas derrotas, e aí dá nisso: pancadaria lá no aeroporto de Buenos Aires proveniente dessa facção unificada — devidamente sustentada e alisada pelo clube — que destrói o patrimônio público e a paciência dos jogadores e dos torcedores decentes e de bem. O Lancenet! traz tudo com detalhes.

Primeiro que esse pessoal da Mancha, que no meio da semana deixa de trampar para viajar e bater em marmanjos, poderia, sei lá, arrumar algumas muiés aí para descontar toda essa ira, ui, revolta, ai, brabeza. Essa gente forte aí, trabalhadora, decente, não bateu no límpido Serdan quando a escolha de samba foi rebaixada no Carnaval. Essa gente bate e assopra.

Ainda, é no mínimo burra e idiota essa gente que viu há duas semanas um episódio que culminou em uma morte justamente causada pela torcida de maior rivalidade. Porque não importa o lugar onde seja consumado o ato, num estádio ou um aeroporto. A questão é a violência e, evidentemente em menor escala, as consequências ao clube — que para essa negada aí é o bem maior. Não interessa se é picuinha com Valdivia ou jogador X — o que o pobre Fernando Prass, com um corte na cabeça, tem a ver com o pato? Mas não há alguém ali com a menor capacidade intelectual — ah, vá… — para pensar que o Palmeiras pode ser prejudicado em alguma esfera e que chegue nos seus párias tentando impedir. A Mancha não resolveu ainda se ela torce pelo time.

Tapa de torcida não vai fazer jogador ser melhor em campo, muito pelo contrário. Ninguém curte fazer nada com o rabo na mão sabendo que pode ir num shopping no fim de semana e tomar umas bifas porque perdeu um gol. Se o elenco do Palmeiras se recusar a jogar a partir de agora ou rescindir seu contrato, é até uma atitude louvável e compreensível.

Também é claro que não é caso para a Conmebol agir. É caso de polícia. E como a daqui, que é conivente, não faz porra nenhuma, que a da Argentina faça como a da Bolívia: pega os caras e deixa lá mofando no xilindró. E que nenhum advogadozinho dessa merda de quadrilha apareça depois com liminar dizendo que quem agrediu jogador foi ‘di menor’.

E se num átimo de esperança alguém finalmente resolver algo aqui, tipo Ministério Público, otoridades e afins, que desmanchem essa Mancha e todas essas coligações de torcidas. Que prendam. Que atuem. Que façam seu papel. Como a dificuldade, a burocracia e a má vontade são imensas, o negócio é aquele mesmo: mexer no clube: banir das competições e pronto. Porque aí o clube é quem se mexe e toma uma atitude.

Ou o negócio é fechar as portas do Palmeiras. Aí esses canalhas, enfim, sossegam e dão paz.

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Ser e valer

SÃO PAULO | García Morente pode ser um nome não muito afeito aos nossos olhos ou ouvidos, já que não foi artilheiro ou craque do Campeonato Espanhol pelo Barcelona ou Real Madrid nem piloto ou investidor da HRT ou da Campos na F1. Manuel era filósofo, da escola kantiana, e seus estudos concentraram-se principalmente na axiologia, a área que se aprofunda sobre os valores humanos. Manuca, lá pelo começo do século passado, começou a formar suas próprias teses e chegou a uma conclusão simples, meio besta e óbvia olhando de relance, de que “os valores não são, mas valem” e que “uma coisa é valor e outra coisa é ser”.

A explicação de García Morente a tal tese é que o fato de atribuirmos uma opinião ou julgamento a algo que existe não significa que estamos fazendo menção à sua existência. Se alguma coisa que é não nos deixa indiferente, possui um valor, e isso nos permite os vários juízos que aplicamos – daí as concordâncias ou discordâncias que temos a respeito de tudo. Estes valores herdados ou aprendidos envolvem moral e conduzem nosso comportamento em uma sociedade.

Um filósofo mais famoso, Levi-Strauss, que muitos usam como calças, cunhou que a moralidade tinha início na proibição do incesto. Numa linguagem mais coloquial, o francês via que o homem era diferente dos outros animais a partir do momento que ninguém comesse ninguém da sua família. Hoje, nossos conceitos talvez estejam muito mais evidentes neste sentido se a questão envolve menores de idade e a pedofilia – porque, há de pensar o mais danado, sempre há uma prima de segundo ou terceiro grau mais safada dando sopa, e a carne é fraca. OK, que seja. São leis de conduta que foram se aperfeiçoando com o tempo para que nós, enquanto sociedade minimamente civilizada, pudéssemos nos adaptar e nos encaixar a estes padrões.

Os padrões de hoje são evidentemente diferentes dos tempos de Levi-Strauss ou de García Morente. Hoje, somos muito mais permissivos e liberais, corpo, amor, erotismo, sexualidade e existência, e as discussões que surgem sobre o que é aceito ou não decorrem do acúmulo destes valores que nos foram imputados. Mas há alguns fatos mínimos neste conjunto de maneiras de comportamentos que transcendem os tempos. Coisas que a filosofia simplesmente apontaria como bom senso.

O futebol não é o melhor dos mundos para se falar em moral, por tudo que dele sabemos – a começar pelas entidades que o regem internacionalmente e nacionalmente, pelas manipulações de resultados, pelos casos de doping, e, em menor esfera, pelos pequenos atos que os compõem; até um minuto de silêncio é uma questão diferenciada nas várias sociedades, respeitoso lá, indiferente aqui. Mas convive-se com um esporte que é paixão mundial, e ainda que as mães dos juízes e as torcidas adversárias sejam ofendidas em todas as suas gerações, a partir do momento em que a integridade física de todos é mantida, os bens superam os males.

Não foi o que aconteceu naquela quarta-feira em que Kevin morreu. Quando um moleque apaixonado por um esporte perde a vida bestamente porque um idiota qualquer, ‘de menor’ ou devidamente barbado, apontou um sinalizador em sua direção, é porque precisamos imediatamente rever nossos valores. Novamente, cai-se sobre a organização que comanda o futebol por estas bandas, e de novo a conversa sobre (i)moralidade vem à tona por ser a Conmebol. Que, vá lá, tomou uma atitude contra o Corinthians, banindo sua torcida da fase inicial da Libertadores. Mas já que é quem supostamente manda, o juízo obriga a obediência.

Há, sim, um valor e uma simbologia sobre este ato da Conmebol. Uma metáfora que se embute: o respeito ao luto pela morte de uma vítima de 14 anos, que é o cerne da questão. E em qualquer sociedade deste mundo, qualquer que seja o credo ou postura, a moral simplesmente apontaria que a punição simplesmente fosse acatada em nome de Kevin. Assim, o Corinthians evidentemente foi imoral ao tentar demover a pena, e menos mal que não insistiu quando foi mantida – naquelas, passando um pano. A grandiosa parte de seus torcedores, todos aqueles que compraram ingresso, entenderam de alguma forma que não deveriam entrar ou forçar entrada no Pacaembu ontem contra o Millonarios. Menos seis.

Seis engravatados entendedores de outros tipos de leis e valores se valeram de sua aflorada coxinhice, neologismo que define muito do que é essa sociedade de fachada, para chegar a uma vara cível e conseguir a glória alcançada em formato de liminar. Enquanto a imprensa ainda encontrava resistência para passar os portões do estádio, os imbecis e bocós – aprendi alguns valores levemente críticos, não exatamente esses – que poderiam formar um nome de novela apareciam para as câmeras e microfones falando bonito – um nem tanto; era um mano travestido de terno – e batendo no peito em nome de suas vãs existências. Mas até o time que tanto amam, possivelmente constrangido com tal ato, suplicou que voltassem às suas casas e fossem condescendentes e minimamente humanos. Dois atenderam, e os outros quatro foram às numeradas para consumar sua cretinice.

Estes quatro fingiram escolher ir ao Pacaembu sem na verdade terem escolhido. Usar o direito do consumidor em nome de suas belas liberdades de ir e vir foi um subterfúgio jurídico para apenas serem representantes aos olhos dos outros que lá queriam estar como amantes de um clube de futebol. Eu definiria de outra forma, mas um outro filósofo, Jean-Paul Sartre, muito mais embasado e possivelmente eufemístico, simplesmente classificaria a ação dentro do tema moral como má-fé. Os quatro ficaram lá, gritando aleatoriamente quando não estavam falando em seus celulares, postando fotos no Instagram e no Facebook ou retuitando elogios, pensando serem representantes máximos, quase deuses, de um banco de loucos e, na esfera terrena, cidadãos que berram e clamam e buscam por seus interesses neste país. Sendo que nós, com este mínimo de valores morais, cagamos para este tipo de gentes.

Coitados. Os quatro do Pacaembu, da mesma família e com sua má-fé, só mostraram que não são nem valem nada.

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A morte de Kevin

SÃO PAULO | Uma breve pensata sobre a morte de Kevin Beltrán, 14 anos, no estádio de Oruro, e das pessoas tresloucadas que tentam separar os fatos, considerar como fatalidade ou incidente, culpa do acaso, azar ou coisa do tipo — ou, no caso da comparação com Heysel [Bélgica, 1985, torcida do Liverpool, 38 mortos], que não foram para matar intencionalmente e trololó: não viajem.

O que aconteceu ontem à noite na Bolívia é similar ao que vemos comumente ao que se considera como homicídio doloso ou culposo. É tudo que é perigoso e/ou proibido e que, em mãos erradas, pode causar tragédias. Falar em fatalidade é ser cretino, é ser desrespeitoso com Kevin, com a família, com quem tem um mínimo de juízo e sanidade. E se lá, o banimento por 5 anos de todos os times ingleses das competições europeias resolveu, aqui haveria de dar um jeito. Porque só mexendo na paixão dessa gente é que essa gente vai se mexer, vai agir como seres humanos decentes e normais.

Até porque sabemos muito bem que todos os times financiam essa farra de torcida organizada, o que faz concluir que times e torcidas são praticamente uma coisa só: coexistem simbioticamente. Logo há de vir à tona a notícia de que um advogado do Corinthians vai ajudar os torcedores. E se fosse com o Palmeiras, defenderia severamente a exclusão do time da Libertadores. Ou mesmo todos os times da CBF. Tira todo mundo da brincadeira pra ver se a lição não entra goela abaixo — é a história de sempre: negada só aprende diante de um mau exemplo.

Que se dane se houve ou não a intenção. Matar um moleque de 14 anos com um objeto que é proibido é a mesma coisa que assassinar propositalmente. Ninguém chegou na porta do estádio ontem na Bolívia portando o sinalizador de boa e dando ‘buenas noches’ para os guardas ali na catraca com a maior simplicidade. Todo mundo escondeu essa merda em algum lugar, para não dizer no meio do rabo. Todo mundo que usa isso sabe do perigo que pode causar — como o tal ‘Tiozão da Hornet’, que, ao andar a 300 km/h com sua motoca, tem a ciência que pode estraçalhar com a vida de alguéns; ou aquele que leva 50 g de cocaína pra balada pra cheirar no banheiro sabe dos riscos de empacotar com uma overdose.

A gente precisa ser racional nessas horas. Uma vida vale muito mais do que qualquer jogo ou título. Tite disse bem, e é admirável cada vez mais sua postura não só como treinador, mas como indivíduo. Se a Conmebol tivesse um pouquinho, só um pouquinho de dignidade, parava esse campeonato. Colocava ordem nessa porra toda. Mas se ela não consegue evitar que a torcida atire pedras nos jogadores durante um escanteio ou só se pronuncia 12 horas depois de um grave ocorrido como o desta quarta-feira, ela é conivente com isso.

A Conmebol ajudou a matar Kevin ontem.

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Minha Burkina

SÃO PAULO | O programa começou pouco depois da meia-noite, horário de Uagadugu, com a negra vistosa e simpática, de cabelos longos e tranças finas, em pé, alternando a leitura do seu roteiro com o olhar feliz para a câmera central, indicando ali que a produção não dispunha da tecnologia do teleprompter. A bancada no formato de meia-lua apresentava ao lado dela outros dois componentes, a caráter, sorrindo e gastando o francês deles, ‘historique’, ‘magnifique’, e eles se aproximavam do microfone preso à mesa, lembrando um debate, e elogiavam, acho, o desempenho da equipe que horas atrás havia dado a maior alegria esportiva da vida deles.

A câmera voltou a focar a moça, que não precisou seguir o papel para levantar o copo plástico em sinal de brinde e dar uma bicada na bebida que deve ter saído da garrafa verde de champanhe com rolha de cortiça a seu lado esquerdo. Os demais seguiram o ritual, e a atração, ‘Plateau CAN 2013’, continuou com o debate efusivo na língua nativa nos estúdios da Radiodiffusion Télévision du Burkina, a primeira emissora pública de informação ‘du Faso’.

Burkina era Alto Volta quando nasci, e a mudança do nome há quase três décadas não impediu a sequencial sensação de guerra civil imposta pelos governantes e comandantes ávidos por golpes militares. País com a maior taxa de analfabetismo da África, é também um dos mais pobres do continente e dependente da agricultura, que sofre com a seca incessante naquela região do nordeste continental. Blaise Compaoré é o presidente que matou o anterior, Thomas Sankara, para chegar ao cargo em 1987, o que me faz concluir que não é das pessoas mais afáveis e pacíficas.

Burkina ganhou minha atenção por causa do Rali Dakar, quando a competição ainda era disputada em sua origem e um dia resolveu incluir o país como seu destino, chegando à então desconhecida Bobo Dioulasso, segunda principal municipalidade local. Cobrir aquilo à distância, com Rodrigo Borges, era engraçado. A gente sempre foi meio pancada e bitolado com cidades e capitais, e Bobo, além de sermos nós, virou uma referência. Um dia vamos a Bobo, prometemos, e Burkina virou um xodó, além de ter uma sonoridade boa. Quando o Dakar abandonou a cidade, o país e a África, perdeu sua essência. Morreu para nós, que nunca vimos numa CVC da vida como faz para ir a Bobo em suaves prestações. Assim acompanhamos o que Burkina vinha fazendo no futebol, sem nenhuma esperança de que fosse além algum dia e quase em tom de galhofa. Até ontem, naquela semifinal contra Gana e o árbitro.

A apresentadora voltou e chamou a palavra do presidente, e Blaise apareceu no ‘Plateau’, até porque controla a TV. Em tom calmo, como quem havia conquistado um latifúndio de chuchu em seu país, expressou sua felicidade pela classificação à final da Coupe d’Afrique des Nations contra a Nigéria. A atração do fim de noite também foi às ruas para mostrar também a alegria do povo. As pessoas reunidas em frente a TV tocando as vuvuzelas locais, as crianças e os adultos nas ruas que em muito lembram as favelas mais miseráveis de nosso país, até a parte mais nobre da cidade apareceu, com os carros chiques tendo dificuldade para trafegar em meio à multidão, onde todos esqueceram o sofrimento que provavelmente nenhum de nós há de passar. Gente que vai esperar o domingo como um prato de comida ou de água, ou o salário de menos de 300 obamas, ou a cama ou o teto que não tem, gente ansiosa e eufórica simplesmente por causa de um jogo de futebol.

Futebol que nos abre os olhos para realidades de pobreza e condições subumanas que não deveriam existir. Futebol que nos enche os olhos não só pela beleza, mas por emoções como essas de Burkina. E outras que ainda estão por vir no domingo, contra a Nigéria em frente à TV, tomando cerveja no copo plástico.

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Reencontro com o sentimento

SÃO PAULO | Já passei um ano além do início da era balzaquiana, e se for fazer uma conta rápida, de cabeça, foram cinco vezes como esta. Eu tinha 12 quando descabacei com a vitória no Paulista de 93, Edmundo, Oscar Roberto Godoi, 4 a 0 no segundo jogo contra os coirmãos, Parmalat no peito e goela adentro e a fila que se acabava. A indústria leiteira me ajudou no ano seguinte, e em 1996 a montar o pojeto de um time histórico, que metia 6 no Santos na Vila e vencia 27 de 30 só perdendo uma pro Guarani. Aí no fim da década teve a Copa do Brasil, o passo para a conquista maior, e a sacada era meu palco para o grito pós-pênaltis, contra Marcelinho, contra o Cali, contra o mundo, e a gente ia para o Japão para jogar contra o Manchester, e o nosso santo falhava, mas santos falham, santos não são perfeitos, ninguém é perfeito, e Marcos seguiu sendo nosso guia.

Só que passamos um tempo sem guias, sem marajás, mas com Mustafás, que nos derrubaram, nos deram a derrota contra o Vitória, caímos, e eu estava no Rio quando caímos, 4 a 2, 4 a 3, sei lá quanto, o Vitória marcou 4, e eu numa casa de praia meio atônito sem entender muito bem o que era um rebaixamento, mas muito inclinado a atrelá-lo ao fim do mundo, ao fim da vida, ao fim do universo e tudo mais.

O dinheiro laticínio comandado por Brunoro era uma exceção na nossa vida. Dizem por aí que para os coirmãos sem taxas é mais difícil. Vai nessa. Não fosse a tal bufunfa, a fila seria de mais de três décadas e meia. É um período que só os coirmãos lusitanos aguentam – mas como eles se contentam com títulos de séries menores, e isso não é demérito, a nossa fila seria maior. Em 2003, na real, não tinha como não subirmos com o Botafogo, e aos trancos, barrancos e solavancos, a gente foi sobrevivendo. O pofexô voltou em 2008 e nos deu um Paulista, um engodo destes que agradam algumas poucas vozes, vórtices, vorazes, viadas em suas metas e pretensões. Com Muricy, em 2010, a vida voltou a ter sentido. Faltavam cinco rodadas para o fim, e o caminho para o título parecia claro. A decepção por não ir sequer à Libertadores era o nabo geneticamente modificado e aumentado que mostrava o que tinha sido para nós tudo aquilo: a década perdida.

E nem Belluzzo, renomado, economista, centrado, caralho a quatro, deu jeito naquela zona dividida entre o poder e o poder. Situação e oposição se debruçam no jeito italiano de comandar a coisa, e num mandato bienal de troca de presidentes, quem entra se preocupa em consertar as cagadas anteriores. Tirone é esta marionete aí de Mustafá, que peida na farofa, que diz e desdiz, que baixa a crista pelas costas como a calopsita que há 17 anos canta aqui em casa quando me vê. Felipão, o técnico do fim dos anos 90, voltou, e numa boa, era a nossa última esperança de evitar a formação do Portumeiras, a aliança das colônias com nossos amigos patrícios do Canindé.

Nós fomos vistos com extrema comiseração nos últimos tempos, e nada pior que ter a simpatia dos rivais para ganhar um título para exprimir tudo isso. As coirmãs do Jd. Leonor, até mesmo os coirmãos recém-premiados com a conquista sul-americana, os da baixada e tal, todos nos viam com aquele olhar de pena, de quem estava na seca, sem trepar, gozando com o pau alheio na torcida contra. Felipão foi aturando as críticas e levando consigo um grupo de jogadores com limitações evidentes, andorinhas que mal fariam primavera, nunca verão, diriam os adversários sobre títulos e finais.

Mas aí a Copa do Brasil era a cara de Felipão, sempre foi, e Coruripe, sei lá que times mais, não seriam capazes de barrá-lo, nem mesmo estas andorinhas que teriam quero-queros a destruir país acima e abaixo. E quando chegou lá embaixo no Sul, na semifinal, confesso, era impossível passar do Grêmio. Não porque ali do lado estava o time do novo pojeto do velho pofexô, mas porque éramos nós os fracos, os oprimidos. E no dia da primeira final, calhou de ser o dia do jogo da Dinamarca na Eurocopa, contra Portugal, aquele sofrimento e tal. Ali, naquele dia, eu percebi que já não era mais tão alviverde. Eu era alvirrubro, num provável duelo entre estas minhas equipes. E eu falei isso pra todo mundo, e é verdade. Eu sofri mais pela Dinamarca porque eu não esperava nada do grupo de Felipão, e aí a gente vai lá e mete 2 a 0 com este lindo deste Barcos e o mais maravilhoso negro da história da humanidade capaz de bater faltas com o pé direito, Marcos Assunção.

Passamos pelo Grêmio e caímos com o Coritiba, que havia rifado de nossa fuça as coirmãs que já amargam uma filinha considerável, o Coritiba do 6 a 0 do ano anterior que nos matou mais um sonho. Então, parecia ser difícil passar pelo grupo do bom técnico Marcelo Oliveira, até porque havia ali um gostinho de vingancinha que poderia fazer mal. Mas como pouca coisa já agrada, chegar a uma final após tantos anos já me fez reacender um lado que estava encostado perto do apêndice. O primeiro jogo aqui, definido pelo sorteio, era um ponto a favor – essa história de definir em casa é perfumaria. O negócio é fazer o resultado na primeira para garantir a retranca na segunda.

E no jogo primeiro, aquele desempenho do Palmeiras foi sofrível. O Coritiba se perdeu ali. O Coritiba perdeu ali. As tantas chances que desperdiçou eram o indício de que, sim, era possível. O pênalti, discutível ou não, abriu a chance. O pé de Assunção permitiu que Thiago Heleno, longe de ser um Clebão ou Antônio Carlos, cabeceasse para abrir dois gols de diferença. Mas os dois pés esquerdos de Maikon Leite que não converteram o terceiro gol no fim do jogo na mística de Barueri delineavam que a vida nos seria difícil.

Para quem vê o time sempre na ótica do copo meio vazio, a semana foi complicada, Era no mínimo ir para os pênaltis, até porque o retrospecto contra o Coritiba na própria competição indicava tal diferença. Mas uma hora pesa. A nossa camisa era mais verde, e por mais que zicas como apendicites, expulsões, contusões e febres ebulissem, a nossa camisa era mais. Era muito mais. Algumas chances vieram no primeiro tempo de horas atrás, e parecia que o filme de Barueri seria revisto. O empate em zero permaneceu, recuamos no segundo tempo, e veio o gol deles. Fodeu. Fodeu em verde e branco.

Mas vai saber o que acontece. 2012 tem sido absurdamente estranho, e talvez seja isso que explica que um time tão limítrofe, zicado e cheio de problemas por conta desta direção mal gerida chegasse rapidamente ao empate. Nos pés dele, na cabeça de outro. Betinho. Betinho, quem é Betinho? Betinho é a expressão da nulidade para um time que teoricamente é grande e precisa de um atacante. Betinho havia perdido um gol que até eu, de cócoras, talvez faria na parte anterior do jogo. Betinho, casquinha na bola, canto esquerdo do gol. Gol. Título. Ali era título, não tinha como. Cerveja aberta, Twitter aberto, mercado não estava aberto, não tinha tanta cerveja assim, é campeão, é campeão sóbrio, é campeão, e vamos gritar é campeão finalmente.

Apito que dá o fim, a lágrima que teima não cair, a cerveja que se acha na geladeira, ali no fim da geladeira, a geladeira que curiosamente não acendeu sua luz. A luz que se acendeu, a cerveja que desce gelada, 13 anos, 13 longos anos esperando este momento, a janela aberta, o grito, a calopsita que pia ao ouvir o grito, os jogadores que se emocionam, estrupiados, o santo que nos deu tantos títulos querendo beber até a água do Tietê, e eu abrindo outra cerveja, e os fogos e tudo voltando à mente, 1999, a mesma sacada, o mesmo sentimento, a mesma alegria, a ligação para o amigo Fabio Chiorino, as risadas e os absurdos ditos, caralho, é campeão, é campeão.

13 anos depois, é campeão. A lágrima caiu, veio a segunda, é campeão, a terceira, e mais, e o sorriso desbragado que vem é da felicidade de saber que, sim, aquele sentimento existe, ainda existe, só estava guardado, e eu achei que o tinha perdido pra sempre. Eu achei meu Palmeiras de volta. Achei meu Palmeiras. Meu Palmeiras. O meu bem querer.

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À merda

SÃO PAULO | A capa do L’Équipe de dois anos atrás externava grande parte do sentimento dos franceses pela eliminação da França na primeira fase da Copa do Mundo de 2010. Num grupo que tinha a anfitriã e fraca África do Sul, o técnico Raymond Domenech foi jogado ao cadafalso com jacarés famintos e então levado à guilhotina depois da derrota de 2 a 0 para o México.

O principal jornal de direita num país então governado pela direita de Nicolas Sarzoky soltava em sua página principal dois palavrões. Um “vai se foder, filho da puta” de boca cheia e dado com gosto por Nicolas Anelka que ecoou na redação e no país todo, e Domenech e sua arrogância morriam para o futebol enquanto o povo se sentia representado na manchete e não ia às ruas em Paris, Nice ou Marselha para acompanhar o resto da competição.

Pois ontem o futebol mexeu por estas bandas com quem gosta do futebol, independente se o time estava ou não em campo. No Rio, a mão do careca Santiago Silva sobre o despedaçado Thiago Neves virou a foto digna de prêmio para que os irreverentes argentinos se deleitassem com o empate-vitória do Boca com o Fluminense. O gol ao estilo Boca de existir, no minuto final de uma partida em que nada fizera, soltou do povo vizinho o ‘carajo’ exposto na chamada do Olé. Da mesma forma, o Corinthians mandou o Vasco para casa no cabeceio certeiro de ‘PQPaulinho’, como o Lance! trouxe, em um terremoto provocado pela torcida dos coirmãos isentos de taxas na região do Pacaembu.

Numa análise rápida, a resposta do povo às capas dividiu opiniões. De boa, nem deveria. Num país que se diz do futebol e em que todo mundo torce, contra ou a favor, a expressão de um palavrão em uma capa de jornal ainda é vista por muitos como um acinte, num conservadorismo que remete aos tempos da ditadura e fere os bons modos e costumes. Como se as crianças que o lessem perdessem toda sua educação engravatada e velada e adotassem para a vida a Lei do Bambu daquela menina do programa do Silvio Santos. Como se aqui fosse o Vaticano, de gente teoricamente beneditina e sacrossanta, onde não fosse permitido falar aquele sincero ‘puta que pariu’ e a sigla PQP tivesse de ser adotada como regra, e com restrições. Como se o ‘carajo’ aportuguesado, com o perdão do trocadilho, não estivesse na boca de toda essa gente depois de um gol perdido como o de Diego Souza. Como se o esporte fosse uma ópera ou uma orquestra e o populacho fosse relegado a uma cadeira e a aplausos quando o pano cai.

Não é uma apologia extrema para que o palavrão seja corriqueiro. Há de se ter um bom senso, obviamente. Caberia aqui, também, uma longa discussão do papel do jornal impresso e como eles têm de se remodelar para não serem devorados pela internet, de como os periódicos vêm se transformando numa revista diária que seja um complemento da grande rede. Se os jornais encontraram na voz do povo uma sobrevida, os bons esportivos que sabem o que é e do que é feito o futebol foram ideais em suas mensagens. Futebol e palavrão são Buchecha e Claudinho: coexistem. É que até na mais simples das coisas tem quem seja provinciano.

Essa gente, inclusive do meio, que faz mimimi e muxoxo por causa de um palavrão, ainda se excita com a imagem das pernas descobertas da dançarina de cabaré no folhetim dos anos 50. Os franceses, talvez, mandariam a la merde.

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A raposa e o céu

SÃO PAULO | A Sky não vai mais precisar substituir os comerciais do Fox Sports por qualquer outra coisa em sua programação. As duas partes chegaram a um acordo, hoje e enfim, e o canal esportivo vai finalmente figurar na grade da operadora.

Ainda estão sendo acertados os últimos detalhes, como número do canal e o pacote de inclusão, mas a previsão é que, no início de março, os eventos do grupo de Rupert Murdoch estejam no ar à disposição do assinante.

Assim, só vai faltar a Net se render à emissora que concorre com ESPN, SporTV, BandSports e Esporte Interativo.

Adendo 1: a quem interessar possa, a negativa da Sky ao Yahoo! está aqui. Que, obviamente, não surpreende. Até porque, se admitirem, os gloriosos assinantes vão querer para já o canal.

Adendo 2: o Fox Sports deveria ter estreado na segunda-feira, 5 de março, na Sky. Mas um fator, aparentemente pequeno, impediu — e por parte da própria emissora: o número do canal, não aceito pelo grupo da raposa. As partes ainda negociam, mas todo trâmite deve ser revisto por este detalhe. Quando o Fox Sports se começa a pôr empecilhos…

Adendo 3: 12 de março, segunda, o contrato foi enfim assinado. A expectativa, para não dizer ordem, da Sky é que o canal entre em sua grade até quarta ou quinta-feira. A meta é atingir 200 mil assinantes num primeiro momento e chegar a 800 mil a longo prazo.

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A essência do ídolo

SÃO PAULO | Tenho lá minhas restrições para idolatrar alguém. Como tudo hoje tem seu significado deturpado, a visão de ídolo se confunde com a histeria que se faz por aquelas menininhas — e, por que não, menininhos e marmanjões — nos shows destes pseudocantores de refrões chicletes, na composição de um clichê bem colocado em redes sociais ou na vitória sobre um reality show. Basta que um rotule, pronto, a manada vai atrás. Ser ídolo ficou bem fácil e fútil.

Por isso o que eu acabo tendo é uma admiração profunda. Gosto demais de uma cantora canadense principalmente por sua capacidade de compor, o único piloto por quem torci muito na vida também é de lá, e tem um segundo, um italiano, que representa uma lição de vida das mais fantásticas destes tempos atuais antes e depois que perdeu as pernas, amigos com histórias de superação ou mesmo inteligência e argumentação visíveis e notáveis, e pouca coisa mais.

O que pode me fazer mudar de leve este conceito é a origem. Como o Capitão Nascimento faria para explicar o que significa estratégia, ídolo vem do grego εἴδωλον, como todos deveriam bem saber, e é um objeto de adoração que representa materialmente uma entidade espiritual ou divina, e frequentemente são associados a ele poderes sobrenaturais, ou a propriedade de permitir uma comunicação entre os mortais e o outro mundo. Grato que sou ao Wikipedia, é hora de analisar este Marcos.

Nome do meu pai. Nome do nosso goleiro. E foi um goleiro que me deu as maiores alegrias no futebol, para o time que eu escolhi torcer, não um Matador ou Animal. Eu não corri para uma sacada e gritei para a vizinhança inteira ouvir por causa de gols. Quando mais eu comemorei, Marcos era o centro das atenções. Foi Marcos que me fez entender bem o que é essa praga chamada futebol e me fez qualquer conexão com qualquer outra parte do universo.

Foram duas vezes no mesmo ano e, na intersecção, duas situações semelhantes. As defesas que tiraram os coirmãos da Libertadores em 1999 e 2000. O título da competição em casa no primeiro ano. São três imagens, três flashes, os pênaltis, os apitos, o olhar fixo na bola e a boca aberta. A boca que, quando aberta, é um espetáculo para os repórteres. Porque, face a mediocridade que se vê no esporte brasileiro, dele se extrai conteúdo. Marcos rende manchete no nosso linguajar, mas não porque quer ser polêmico. É porque é simplesmente sincero. É porque simplesmente é simples. Ser simples no mundo de hoje é artigo em raridade. Marcos é o Fusquinha no meio de tantas BMWs, com ou sem marcas de balas.

Pois há muito se especulava que aquele que batizaram como santo estava para se aposentar. Num cenário dominado por assessorias e declarações oficiais, optou pela discrição. Grande, fez o anúncio de sua retirada num dia em que muito se falava dos pseudocantores de refrões chicletes, fato que levou a várias composições de clichês bem colocados em redes sociais e quando foram revelados os novos candidatos a herois de uma nave-mãe pela 12ª vez. Não importa se ele é mais ou menos que o goleiro coirmão que faz gols — mas, putaquepariu, é o melhor goleiro do Brasil. Ele conseguiu ser praticamente unânime no gosto de um povo num microcosmo de tanta rivalidade. Marcos é Marcos.

Eu só o vi de perto uma única vez na vida. Eu fazia um cursinho concomitante ao último ano do colegial e era muito próximo ao hotel onde meu time costumava ficar concentrado. Passando a pé lá, vi os jogadores saindo em direção ao ônibus que levaria ao jogo. Lá estava ele, e eu, que não sou muito afeito a este tipo de ato, fui e pedi um autógrafo. Pois não só deu como começou a conversar. Na época eu nem tomava umas e outras, mas é o típico cara que vale a pena sentar à mesa do bar do Zé da esquina e ficar horas porque tem história e valor. Não pelo que ele fazia enquanto profissão, mas pelo que é como caráter. E isso é o que importa no fundo.

Claro que não lembro de absolutamente nada do que conversei, Marcos se foi para o ônibus, eu guardei o bloco de folha de fichário na mochila e segui meu rumo. Só me lembro que era 1998, um ano antes de ver que nascia meu ídolo em sua essência.

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O novo Maraca

SÃO PAULO | Devidamente refeito da canseira em Interlagos, o negócio agora é falar de… futebol, claro.

O André Naddeo, velho amigo dos tempos de iG e quase-vizinho da época em que ele morava em São Paulo, está em um novo projeto em sua carreira jornalística. Lá no Lance!, Naddeo está cuidando do ‘Novo Maraca’, uma página destinada a acompanhar as obras do estádio e que também resgata a memória do principal estádio brasileiro.

O site já está no ar, e pode ser acessado aqui e agora. Tem até câmera de 360º e está integrado às redes sociais. Só na primeira e rápida passada que dei lá, posso atestar que vale muito a pena ver. Tá bem completinho e com qualidade.

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Rei Ricardus

SÃO PAULO | Um dos meus exercícios preferidos é contrariar minha mãe. É divertido vê-la subindo nas tamancas, como minha avó diria, viva estivesse. A reação dela ao ouvir uma nota 6 para um almoço que ela julga ser 10 é digna de um Oscar por melhor drama. O negócio também vai para discussões mais fervorosas, para assuntos como família ou mesmo postura de vida. Ou mais ou menos relevantes, como futebol.

Eu ainda tinha menos de 10 quando, no fim daquele jogo da Copa do Mundo, minha mãe correu para se sentar no banco redondo e dedilhar no piano a música de tango à qual a maioria está acostumada. No apito final, ela fez sua melodia e esfalfou-se com a desclassificação do Brasil em 1990. Não eram bem essas as palavras, mas como conheço a figura, certamente era algo como “mas não são os bons, os melhores?”, e caía na risada, congraçada e realizada pela eliminação do time do qual não suportava a soberba e a falta de humildade.

Até hoje é assim. E se aparece a tal figura em alguma reportagem, digamos que desgraçado seja o predicado mais leve. Jeitão dela.

De certa forma fui influenciado por aquilo, mas no confronto dos meus ideais de provocá-la, minha aversão pela Seleção acabou em um meio termo. Preferi torcer pela Dinamarca. É bem mais legal. Na Copa de 1998, aos 2 minutos de jogo, minha mãe e eu fizemos eco na sacada de casa com o gol de Jorgensen. No fim do jogo, lembro da lágrima furtiva pelo 3 a 2 contra e ela lá, malditos, filhos da puta, não vão ganhar essa merda. Em 99,9% das vezes, numa estatística com certa margem de erro, sou aloprado pelos insucessos, mas vida que segue. Eu escolhi para quem torcer. Não fui tomado por um patriotismo ou nacionalismo falso que só existe em períodos de quatro anos. No intervalo, há uma catarse e uma letargia coletivas.

A pátria em chuteiras. Nelson Rodrigues reavaliaria isso. O homem que comanda a pátria em chuteiras é o mesmo da época daquele tango. Fisicamente não mudou muito. Juridicamente, um tanto quanto. Em negócios faraônicos, inverteu dunaS para formar uma empresa, da qual formou sítios e mansões. Lavou as mãos e molhou. Saiu impune. Na nossa republiqueta, fez-se rei e como escudo pôs a principal emissora do país. Ali ganhou mais do que o quarto poder nas mãos, e qualquer sujeira vem sido varrida para debaixo do gramado, mesmo se o estádio em volta esteja longe de ser erguido.

O Brasil ganhou a Copa. Ganhou? Quedê? O que o Brasil ganhou com a Copa, se a Copa indica um estado de exceção em prol de uma entidade esportiva? A tal figura ganhou com a Copa, e com ela no bolso, seu reinado virou absolutista. Luis XIV tem inveja no mundo paralelo da tal figura que cooptou gente ministerial e de outras casas oficiais da republiqueta e encheu de brindes e mimos seu fiel escudo de microfone. O futebol virou um ciclo de cifrões oriundos da imoralidade.

Eu me sinto bem à vontade para falar do pouco poder desta quarta via por pertencer a ela. Sinto certo asco. Da fraqueza e do pouco empenho que se faz para levantar fatos e investigar, da subserviência e da comodidade que se inclinam diante da presença do ‘doutor’ — aliás, é fácil ser doutor sem ter o título. Não é só no futebol, não, doping e Tarso Marques não me deixam mentir. As tantas que tentam agir só o fazem por chantagem ou vingança. É o jornalismo conveniente típico das bases dos amigos de balada que não conseguem ficar com uma garota. Se eu não pego, ninguém pega. As exceções acabam sendo tão poucas que o barulho pouco incomoda e é abafado porque aquela que deveria ajudar e zelar vê o Brasil como Springfield. E a gente acaba admirando e se perguntando como não temos profissionais como Andrew Jennings, o jornalista da BBC que mexe com a vida desta quadrilha que, como fim, acaba mexendo com a minha conta, que não tem isenção fiscal nem mesmo se faltarem alguns centavos.

Não que tivesse alguma dúvida de que tipo de caráter se trata, mas li com atenção hoje à reportagem da ótima Piauí hoje. Não tenho língua papal nem muitas papas, mas a vulgaridade do ‘doutor’ é espantosa. Não a vulgaridade, sei lá. É a empáfia, a arrogância e a prepotência, o escárnio e o deboche. A tal figura só temeria e baixaria seu topete gris se fosse mal falada no ‘JN’. Mas o tio que lá edita escolhe as principais notícias tal como seus seguidores fazem com suas gravatas, já que sabe bem que as portas daquela casa estão sempre abertas e convidativas. A tal figura aí é a expressão máxima da banana que a personagem de Reginaldo Faria dá ao Brasil no fim de ‘Vale Tudo’, novela da época do tango que repassa nos dias atuais. A banana vai ser dada daqui quatro anos, num teórico pós-Copa em que provavelmente a parte de exceção da imprensa vai estar debatendo o rombo, os elefantes brancos e a ausência dos legados da competição. A banana é, por que não, posta virtualmente em nossos rabos. Há quem goste e que ajude a descascar. Tem gosto pra tudo. Nos pés devidos, as chuteiras da pátria ajudam a enfiar.

Qualquer cidadão que se preze e que se julgue brasileiro — não o brasileiro que só lembra do país para torcer por 11 barbados —, deveria ser completamente contra a realização desta Copa, que é apenas um subterfúgio para movimentação de bilhões sem o mínimo de retorno para nosso futuro cotidiano. Quem se une em marchas para maconha, liberdade, homossexualidade ou religião ou faz qualquer flash mob para imitar a cena das cataratas do Niagara do Pica-Pau no vão do Masp deveria ter motes mais civis para exigir transparência de toda essa gente que ronda a tal figura, principalmente ela. Ou ainda, quem espera acontecer — ou, numa linguagem adaptada, quem caga montão — pelo menos deveria parar de torcer para este Brasil. Quem apoia fervorosamente compactua com a figura nefasta que é dona imperial deste suposto time e deste suposto país. Pena que não vai rolar. Porque o Brasil não deu certo. Nunca deu certo. Não há de dar em três ou quatro anos.

Do lado de cá, sigo sendo Dinamarca e me vejo na difícil situação da admissão de que minha mãe esteve sempre certa. Vou dizer a ela o 10 que, enfim, merece no almoço que faço questão de preparar no fim de semana, ao som de Gardel.

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Copinha América

SÃO PAULO | Não é o torneio mais chato do mundo. Acompanhar lacrosse ou tênis de mesa pela TV é maçante, faz a insônia dormir, e a gente se sente meio perdido e inútil. Que seja. O campeonato tem lá sua validade, e até seu brilho, a partir das semifinais. É quando um dos quatro grandes mais o quinto da vez cai. O resto da competição é mera perfumaria. Assim é a Copa América, e as emissoras, principalmente a principal, tentam fazer dela um evento de grande porte — nesta edição, especificamente, por ter  ficado sem o Pan-Americano — porque virou um dogma traçar um plano de enfrentar a Argentina na final e vociferar que as duas seleções, junto com a turma da Europa, formariam a Copa do Mundo dos sonhos, amigo.

A geografia da fifa — em minúsculo, mesmo; cabe ao seu valor — diz que a América do Sul só tem dez seleções. As Guianas e o Suriname não brincam. Tudo bem, até melhor. Só que para emparelhamento das chaves, 12 times é o menos ruim. E a América é dividida, e cada uma forma sua patota. Do lado de lá, sobram sempre Estados Unidos e México a cada dois anos. O resto da competição é mera perfumaria. Assim é a Copa Ouro, e nem as emissoras esportivas a cabo deste lado se preocuparam em passá-la por estas bandas, tamanho é seu valor.

Agora a Copa América acontece a cada quatro anos, mesmo tempo da Eurocopa. Dadas as situações acima, com um pouco de estudo analítico, seria mais sensato e coerente que fosse usado um sistema semelhante, então. Mas sensatez e coerência e dirigentes do futebol são como água e óleo. Pena. Como forma de valorizar o próprio torneio, uma proposta bolivariana de uma América unida caberia muito bem. São 40 seleções lá, 50 no total com as que se tem aqui. Tira a sede, compõem-se eliminatórias em grupos, formam-se 7 grupos de 7 equipes, passam as duas primeiras de cada grupo e o melhor terceiro colocado. E aí se tem a fase final com 16 seleções.

Porque se a Copa América é um campeonato meia boca, essa Copa Ouro que se disputa lá na parte do norte é varzeana. Com todo respeito, um torneio que tem Guadalupe e Granada não merece muito crédito. Guadalupe, diria um amigo meu, é nome de tia velha de novela mexicana. E Granada, ele completaria, é aquilo que sempre explode sobre Willie, o coiote, do Papa-Léguas.

Alguém há de dizer que na Europa é a mesma coisa e que as virtuais eliminatórias de grupos na América teriam equipes muito fracas. Alguns pontos: lá, são pelo menos seis seleções de grande porte — tiro a Dinamarca por modéstia: Espanha, Holanda, Alemanha, Inglaterra, Itália e França. Coloca aí Portugal e Rússia que dá um bom caldo. E num escalão abaixo, ainda há Suécia e Suíça e alguns times da ex-Iugoslávia — a Sérvia é boa de fase de classificação, a Croácia tem lá sua técnica e agora surge Montenegro no cenário. Só nessa, já são 13. Sai algo interessante. Ponho a Dinamarca? 14. Jogo ali a Eslováquia? 15. República Tcheca arrumadinha e decente? 16. Fecha. Sobre os times de beira de estrada, lá tem San Marino, Andorra e Luxemburgo, por exemplo. Seria simpático ver Montserrat, Martinica e Curaçao disputando a brincadeira.

Da forma atual, por aqui, é obrigatório lidar com Peru, Bolívia e Venezuela — ainda que esta última tenha tido uma evolução de se aplaudir nos últimos tempos. Mas o escalão delas é muito abaixo do segundão da Europa. Aí convites a equipes de outro continente são feitos. México. Beleza, o México é bom. Mas aí o México não pode vir com o time titular, que ganhou a tal Copa Ouro. Manda os moleques. Aí fazem putaria, e oito são dispensados. Esquece. Pensam no Japão. Coitados dos portugueses com as nossas piadas. O Japão não vem, terremoto e tsunami e vida para tocar. Corre para arrumar outra seleção. Escolhem a Costa Rica. Sub-22. A isso chamo catadão.

Então a gente põe no papel que dos 12 participantes, são sempre aqueles cinco: Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai e o quinto que se reveza com constância. Nos anos 90 eram a Colômbia, depois apareceu o Equador, e de um tempo para cá, o Chile. E é isso. Os únicos atrativos que a Copa América deste ano têm são o possível e propalado confronto entre Messi e Neymar possivelmente no último jogo e a volta do Uruguai como força — primeiro por seu quarto lugar na Copa do Mundo e segundo porque nem Brasil nem Argentina tem tido equipes fortes nos últimos tempos. Um jogador só não faz mais verão nem título.

Mas o Brasil está preocupado, e Mano Menezes e seus comandados já têm falado em respeito e que o jogo pode ser feio contra a Venezuela. Pelamor, vai.  Se Batista, técnico da Argentina, disser o mesmo contra a Bolívia, interna junto. Brasil e Argentina tem duas tetas-de-nêga no início desta jornada. Os confrontos preliminares são díspares e previsíveis e servem apenas para compor bolão.

E para jogar conversa fora no bar, no vaivém da cerveja e do queijo com azeitona, e discutir coisas como essa e usar como pano de fundo. É assim que farei logo mais à noite, com Argentina e Bolívia, um dos tantos jogos sem importância desta copinha.

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Parlatório: a lista de Dunga

SÃO PAULO | Com uma informação aqui e ali, vinda de Pedro Boesel, piloto e sobrinho de DJ nas horas vagas, eis a lista que aposto que o Dunga vai anunciar amanhã:

Goleiros: Julio Cesar, Doni e meu xará Victor
Laterais: André Santos, Daniel Alves, Gilberto e Maicon
Zagueiros : Juan, Lucio, Luisão e Thiago Silva
Meio-campistas: Elano, Felipe Melo, Ganso, Gilberto Silva, Josué, Kaká, Lucas, Ramires
Atacantes: Luis Fabiano, Neymar, Nilmar e Robinho

Chutaço, na verdade. E a sua?

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Wellington Paulista no Verdão

SÃO PAULO | Futebol é assunto aqui, também. O amigo Marcelo Boero me chamou há pouco para contar da novidade que o Palmeiras está tentando trazer, e que pode anunciar ainda hoje, como peça de peso para seu elenco.

Trata-se de Wellington Paulista, atualmente no Cruzeiro, o Palestra mineiro.

Pois o Palestra verde, segundo Marcelo, tem uma reunião na tarde desta terça com a diretoria chefiada por Luiz Gonzaga Beluzzo. Tudo foi tratado de forma muito rápida porque, como Muricy Ramalho vem cobrando publicamente, o Palmeiras precisa reforçar seu time carente — ainda mais analisando o que Santos, São Paulo e Corinthians investiram. O Marcelo escreveu n’O Fino da Bola a íntegra de sua apuração jornalística, e ao que ele me contou, a fonte é boa.

Wellington Paulista ajuda, porcada cumpanhêra? Eu até que gostei

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O sorteio dos grupos da Copa antecipado

SÃO PAULO | Na ausência de notícias mais profundas de automobilismo, fui consultar meu querido Pai Zulu a respeito do sorteio das chaves da Copa do Mundo de 2010, que é o grande evento desta semana em termos esportivos.

Pai Zulu, grande vidente, visionário, sensitivo, leitor de borra do café e saquinho de chá, cravou que a chave do Brasil pode ser forte ou fraca. Estupefato com a resposta, perguntei a ele se estava fazendo previsões para o Cleber Machado. Sem entender muito, apontou:

_ O Brasil vai pegar ou Gana ou Nigéria de africano. No pote da teta-de-nega/melzinho na chupeta, cai com Honduras por ironia do destino, vide o impasse político. E tem grandes chances de ter a França, por sede de vingança — das Copas passadas e porque todo mundo quer ver os franceses chutados a pontapés da competição. Senão fica com a Eslováquia.

_ Por a África do Sul ser do primeiro grupo, e sabendo que o nome da Dinamarca costumeiramente sai rapidinho em sorteios, é bem possível que as duas caiam juntas. Do contrário, os vikings devem ir parar no grupo da Argentina, num esboço de grupo da morte.

_ Vão ter dois grupos que vai dar dó de tão fracos. Aqueles que teremos de nos perguntar: “Por que temos de ver estes jogos?”

Tem quem sonhe com isso, tem a intuição, tem o puro palpite, tem o chute. Vale qualquer coisa. Antecipem o sorteio de sexta. Mandem bala.

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O esquema 4-3-2-1

SÃO PAULO | O Vinícius de Oliveira, ex-participante de bolões de automobilismo e atualmente home-man do iG, me mandou essa. Não concordo, mas como é um blog, hã, pluralista, divulgo.

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