O dono da bola
É jornalista, palmeirense, dinamarquês por opção e sempre pensou que ia ter de cobrir futebol antes de chegar ao automobilismo, que acompanha desde os 7 anos. E desde que se formou, está no Grande Prêmio, isso há quase 9 anos. Neste tempo, foi colunista do iG, escreveu para “Folha de S.Paulo”, “Lance!” e “Quatro Rodas”, foi repórter da edição brasileira da “F1 Racing”, cobriu F1, Stock Car, a Indy e três edições das 500 Milhas de Indianápolis, e outras categorias ‘in loco’. Conheceu cidades como São Luís e Nova Santa Rita, traduziu um livro da Ferrari e já plantou um monte de árvores. Tem quem fale que seria um grande ator, mas ter ganhado o Troféu ACEESP 2011 como 'Melhor repórter' da imprensa escrita mostrou o caminho certo. Adora comida japonesa, música eletrônica e odeia ovo, ervilha e esperar. “Necessariamente nessa ordem", diz.
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Como não gostar da dupla da Sauber, a melhor da história? #F1 34 minutes ago
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Otro mito. RT @fagnermorais: E o @SChecoPerez me ganhou como fã. Melhor capacete de todos os tempos da história da F1: http://t.co/vs9FKmCr 36 minutes ago
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Lindona! RT @RONEIRECH: @flaviogomes69 Bela foto nao? http://t.co/PXhLJtw9 57 minutes ago
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Vero. RT @estadodecirco: Acho que não houve qualquer destaque para o belo 13º lugar da Bia no grid das 500 Milhas. Estou errado, @vitonez? 2 hours ago
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Fantasiar. É diferente. E ela é maluca. Não duvide. RT @maria_fro: Acho que abuso sexual é muito grave pra inventar... 3 hours ago
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@maria_fro Eu acho essa moça maluca. Não dá para levar muito a sério o que diz. 3 hours ago
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Essa moça é biruta. RT @rcarrapatoso: Disse ! Foi o padeiro, o peixeiro, o amigo do pai, o vizinho, etc ......... 3 hours ago
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E a Xuxa disse quem, afinal, abusou dela? 3 hours ago
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@cutcutdajuju Dida, Domingos e André Luis. EU ACHO SENSACIONAL! 3 hours ago
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O cara está há meia hora mexendo nesta merda de máquina de café e não termina, pqp. 3 hours ago
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A cidade das 3 mulheres
SÃO PAULO | Nunca fui muito fã dos Estados Unidos, não. Quando tinha lá meus 13 ou 14, eu pensava que chegaria aos 20 com meu passaporte cheio de rabiscos e vistos para a Europa, que daria uma passadinha ali na Austrália com um pulo na Nova Zelândia e, quiçá, Polinésia, uma conexão na África e atravessaria aquele país para conhecer o que o Canadá tem de habitável. Não era muito, acho, mas em nenhum momento meu mochilão imaginário incluía os ianques. Era uma visão meio do terceiromundista contra o mundão de lá, o grande capitalista, arrogante, esnobe e massacrador de países, tipo o nosso, de Sarney, Collor e Itamar.
Aos 19, mal indo além das cidades mineiras, do Rio ou da Praia Grande, eis que fui parar em Santa Mônica, CA, por causa de uma promoção. CA-ce-te. Uma correria para tirar visto, um timbre da companhia que não foi visto, uma negativa, uma rebeldia na cabine contra aquele americano maldito e tirano separado por um vidro, um transtorno, um xingamento ao povo, um desejo de implosão, uma tentativa final, um visto aprovado.
Fui. Adorei. Visitei outro mundo, vi uma corrida num oval de perto. Mas se tivesse ido para Burkina Faso para conhecer Uagadugu ou as duas únicas ruas de riqueza de Bobo Dioulasso, teria tido a mesma reação. Estava descabaçando ali do meu eixo.
Dez anos e pouco se passaram, eu já vi quatro corridas em oval, três delas no mesmo. Já tenho uma experiência acumulada de Estados Unidos, ainda que se resuma a uma capital, Indianápolis, que é uma Campinas ou Ribeirão Preto americana. Nesta última viagem, fiquei mais tempo lá, 12 dias. Mas os últimos dois é que foram a cereja do cheese-cake.
Após aquela corrida de fim fantástico, tirei o dia para algumas compras básicas e revolta com o cartão limítrofe. Já havia voltado do paraíso dos preços baixos da outra cidade, alguma Edimburgo da vida, meio puto, quando passei no shoppinho ali do lado do hotel e fiquei vagando. Entrei numa última loja. Olhei bem para a única funcionária, que estava ali no caixa, coque bem feito e ondulado, roupa azul, verde e branca, que deu um giro sobre os saltos tão garboso que me fez quase sentir no guichê da TAM. Ela se virou, assim, mostrou seus mais de 40 anos e algumas rugas e sorriu, ainda tocando com o indicador direito a tela de seu computador. Retribuí e perguntei sobre os produtos, e de rabo-de-olho tentei ler seu nome. Gosto de ver o nome das pessoas nos crachás delas para meramente dar valor àquele negócio atarraxado no canto esquerdo do peito: tem lá a empresa, o logotipo, o pin, o formato e de quebra, quase que de canto, o nome da pessoa. Mas olhei rápido demais, e também não gosto que as pessoas saibam que estou olhando para o crachá. Seria mais fácil, talvez, perguntar o nome. Bobagem. Mas vi lá um ‘Ed’. Ela ia falando e apresentando e eu pensava que ‘Ed’ não poderia ser Edmunda, Edergilza, Edícula. Edna. Virou Edna. E ela tinha cara de Edna, portanto é Edna. Edna me falou lá do suplemento, comprei o suplemento e perguntou o que estávamos fazendo ali, além de comprar dela o suplemento. Dada a resposta, Edna se espantou e começou a abrir seu baú. “Eu estava lá na linha de chegada.”
Edna tinha cara de sapeca e arteira, mesmo, não deve ter sido simplesmente criada em um condomínio fechado em Indianápolis — até porque não tem condomínio fechado lá. E Edna falou que seu pai a levava para as corridas no speedway desde 1972. Uau, reagi, 1972, Edna tem quase 40 anos só de idas a Indianápolis. E a simpática Edna lembrava, pensava e contava, a memória falava e falhava, até que perguntou se estivera lá para ver a F1. Porque ela também esteve. “E eu prefiro F1″.
Uma americana, de Indianápolis, que vai há 40 anos ao IMS, mas prefere F1. Era muito pra mim.
Era segunda, 7 e tantos da tarde que estava longe de escurecer, 95F, que são 35ºC — uma das minhas poucas qualidades é saber converter rapidamente Fahrenheit em Celsius e não chamar a de escala centígrada —, e Edna lá reclamando que o trabalho impediu que visse o GP de Mônaco. “Mas eu deixei gravando em casa”, e mal esperava a hora de baixar a bendita porta para vazar, passar no KFC ou em algum lugar fatalmente calórico para ver a corrida. Avisei que tinha sido boa. “Em Mônaco?”, ela se espantou, dando pulinhos. Edna era muito pimpona e, com ela esfregando as mãos, não sei se por minha compra, pela expectativa da corrida ou por TOC, me despedi.
Parti para o Walmart. O Walmart lá não é como aqui. Parece que aqui é só por atacado, não sei bem, e lá é supermercado do povo. O Walmart lá tem de tudo: frutas, carnes, roupa, graxa, comida para calopsita, assento para privada, móvel para banheiro, tábua giratória para colocação de temperos durante refeições, balança para pesagem, Wii e PS3. Eu queria apenas achar um apontador elétrico, que não havia achado na Fry’s, casa especializada em tais produtos. Primeiro que não tinha a mais remota ideia de como era apontador em inglês. Lá no Fry’s, fui explicar para o vendedor que era “something that you put a pencil to form…”, e percebi que não lembrava ponta. Precisei ir a um vendedor que soubesse espanhol, que então me falou o termo: sharpener. Fui procurar o maldito sharpener para uma certa pessoa, devidamente demitida de um certo lugar. Encontrado o sharpener, paguei pelo sharpener e estava saindo quando a senhora de azul começou a olhar para a sacola. Lembrei que no Walmart eles fiscalizam a compra.
Se uma pessoa vai lá e faz a compra do mês, tá fodida e mal paga. A tiazinha cisma que no lugar da sua lima da pérsia tem limão bravo, faz o quê? Espreme e chupa para ver se é? Ela vai contar mesmo as 18 garrafas de Miller Lite, 24 molhos barbecue com 36 sacos de miniribs? Mas o meu era só um sharpener, e já que o mercado estava sem muito movimento, ela olhou e começou a conversar e logo percebeu que nosso sotaque não era nada parecido com o dela.
Era daquelas negonas do Bronx indianapolitano, bonachonas, do tipo a tia que você espera no churrasco para atacar o minirib com molho barbecue e a Miller Lite trincando. Ela tinha óculos bottle-bottom, que chamamos aqui de fundo-de-garrafa, e o olho direito ligeiramente estrábico. Talvez por isso não tenha achado corretamente o crachá, se é que o tinha. Tinha, sim, pensando bem, todo funcionário tem, de Walmart à lojinha-que-vende-suplementos-e-não-sei-o-nome. Aí ela seguiu o script que geralmente se faz, a gente seguiu a resposta e ela, como todos, espantou-se. Mas o espanto dela, que chamarei de Lindsay, aquela linda, era espantoso. Lindsay soltava um ‘oh, my God!’ que era um “ómágó”, boquiaberta, e ela punha a mão no meu braço e pediu detalhes da corrida que não pôde ver, só pelo ‘SportsCenter’. Entre explicações e gestos no embalo dela, ómágó, e o ar de assombro. Entre São Paulo e Indianápolis, ómágó, e as mãos juntas levadas ao peito. Entre o tudo e o nada, ómágó, e eu caminhava para a saída do Walmart e ela puxando mais assunto e eu quase voltando para o mercado para comprar a carne e o molho para convidá-la para um churrasco. Levei mais uns minutos lá. O tchau foi efusivo, mas não teve ómágó.
Passei o resto da segunda arrumando as tralhas várias, preocupado com pesos e medidas diferentes das de Anders e Daniel Gabriel, também conhecidos como Celsius e Fahrenheit.
Peso tirado do ombro no aeroporto mesmo com meia libra a mais, fui ali para o lado A do terminal do melhor aeroporto dos EUA, segundo a associação dos aeroportos local, e vi uma fila de não mais do que 7 pessoas e 2 oficiais, um homem e outra mulher, para verificar passaportes e passagens. Aproximei-me da senhora autoridade, que logo deixou seu ar de autoridade para perguntar se eu tinha visto a corrida, ao verificar cabeça acima o boné preto de Indianápolis que havia comprado. Com o sim, foi aquela coisa de sempre, sem o exclusivo ómágó. A oficiala desatou a falar. “Porque Tony Kanaan esteve aqui hoje, Dan Wheldon esteve aqui hoje, Helio Castroneves passou por aqui”, e então seguiu o roteiro com as perguntas “de onde são?” e “o que fazem?”.
Aquela cop deveria ser uma humorista do ‘Candid Camera’ disfarçada de camisa azul clara com vincos definidos, calça preta e distintivo da polícia provavelmente limpado no caol, com seu nome lá, que parecia ser Sullivan. Seu companheiro de profissão, em um púlpito, já havia visto meu passaporte, passado a caneta fluorescente na passagem impressa em papel de fax, mas Mrs. Sullivan deu a volta por trás da fita que nos separava e continuou por uns dois minutos a conversa, enquanto a fila até esperava respeitosamente que eu tirasse a mochila, laptop, tênis, carteiras e outras minúcias para ser radiografado. Foi na despedida que veio o momento mais inesperado.
Mrs. Sullivan deixou qualquer formalidade de lado e veio dar um abraço. Com uma mala de mão empunhada, pedi que esperasse, coloquei o objeto no chão e retribuí ao amplexo. Pensei em dar um tapinha na bunda, mas Su podia não querer revelar nossa intimidade assim, para o salão todo, que nos observava. Diante daquilo, nem se eu tivesse carregando o rifle dourado entregue ao vencedor da Indy 500 iriam me barrar naquele raio-X ou pediriam que fosse despido numa salinha qualquer.
Só se Su quisesse. E era Jeitosinha, a Su.
O voo de volta saiu na hora exata, mas chegou a São Paulo cinco horas atrasado porque a manhã paulista trazia uma densa neblina. Fui parar no Rio. Deu tempo de cochilar e pensar em muita coisa, além das que não temos condições para sediar uma Copa e uma Olimpíada — fato corroborado pela muvuca e desorganização latentes tão logo pus, enfim, os pés fora do avião. Eram aquelas três mulheres. Que não tinham nada em comum fisicamente, suas profissões não tinham semelhança, mas elas, as três mulheres, apresentavam uma simpatia que nunca foi condizente com o que sempre imaginei e imaginávamos de forma geral daquele povo. Sei lá se a conduta pós-11 de setembro ou crise baixou o nariz deles, mas agora de vez no mundo balzaquiano dos 30, e unicamente com passagens nos EUA no passaporte, vejo que aquelas três mulheres tinham, com sua simpatia, me dado um tapa na cara para acabar com um estereótipo, ainda que representassem o micro de uma cidade mediamente importante. Hoje já até penso em morar por aquelas bandas, um acinte para mim mesmo até tempo atrás.
Elas, sempre elas, fazem a gente mudar de opinião, aqui ou (sobre) lá.


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