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Ale Rocha

SÃO PAULO | Digamos que tudo tenha uma razão de ser por um ser divino. Desde pequeno, isso me foi posto como verdade à exaustão pelo Estado que não é laico, pela escola de madres passionistas e pelo colégio de frades beneditinos e indiretamente pela faculdade. Todos com nomes de santos, missas, palavras, salvação e rituais, e às 9h da manhã, todos de pé, a música vinha da sala de som e a oração que seguia, Senhor, eu vos agradeço por terdes morrido na cruz pelo meu amor, meu Senhor, misericórdia.

Meu Senhor, misericórdia.

A verdade virou dogma com a família voltada à continuidade da vida no pós-desencarnar, e a tia-avó mediúnica me fez crer com mais firmeza em algo. Deve ter algo, mesmo, e se tem, todo mundo apela ao seu deus de alguma forma, na agrura e na dor, a súplica, o perdão, meu Senhor, misericórdia.

Meu Senhor, misericórdia.

Senhor ou Deus, seja lá quem for, e se me realmente me ouve ou me lê, eu gostaria de questioná-lo por algum tempo. Porque vira e mexe eu sou obrigado a engolir que foi o Seu desejo de tirar alguém aqui de nós, que era a hora e que a missão havia sido cumprida. Não é meio que egoísmo de Sua parte achar que é o momento certo de tirar a vida de alguém? Qual o Seu conceito de tempo? E como saber qual missão cumprir ao Seu gosto, e como não cumprir da forma certa justamente para não satisfazer um gosto meramente pessoal?

Vamos ao fato. Ale Rocha. Um diagnóstico fatal, três anos e nada mais de vida por um problema pulmonar crítico. Se ele tinha uma missão, foi obrigado a mudá-la no meio do caminho. Ale Rocha soube se reinventar e partiu para sua nova fase. Abdicou de uma vida normal para viver, ao seu modo, uma vida normal. Para viver. Quando o Senhor, por meio de um cara de branco com um exame na mão, sentenciou uma previsão e um prazo de validade, tratou de dar seu conceito de tempo. Pois se não fosse Ale Rocha um afeito à vida, teria desistido antes. Teimoso, ouviu do Seu representante que um transplante seria a salvação única. Perdeu peso e passou fome. Entrou no eixo. Fez-se pronto. Durou mais que o dobro do tempo até que o pulmão que deveria salvá-lo chegasse. Qual o Seu conceito de tempo?, pergunto de novo.

Seja qual for, deu tempo para que Ale Rocha se tornasse um dos maiores críticos de TV do país. Que fosse conhecido por um monte de gente, que tomou conhecimento de seu apuro e da luta diária que era abrir os olhos. Deu tempo de sentar na poltrona, de vê-lo numa emissora e num portal de grande porte, deu tempo de ler seus textos, de muito mais concordar do que discordar, deu tempo de respeitá-lo, deu tempo para aplaudi-lo. Enquanto a vida esteve em suas mãos, Ale Rocha deu um baile no Senhor esse tempo todo, este tempo todo Seu e Seu conceito. Enquanto pôde, Ale Rocha preferiu seguir e lutou pra caralho, reconheça isso. O prêmio por essa luta só seria a antítese à estatística de que quem vai para a mesa de operação não sai bem dela.

E nestes dias todos em que vinham as notícias de que Ale Rocha estava bem, Você viu bem a felicidade geral e minha do quanto isso representava, para ele, claro, e para nós aqui. E do nada isso acabou, sem que ele pudesse agir. Meio que na trairagem. Sei que é egoísmo da minha parte, agora, mas como é que Você vai me explicar o que eu estava preparando para entregar a ele quando fosse vê-lo, enfim? E o beijo no rosto e o abraço de admiração? E o bar que eu ia marcar, como é que fica? E a festa e tudo mais? O que eu vou explicar para minha mãe quando, num momento de desespero dela, eu usei Ale Rocha como exemplo de vida? Você perguntou se era desejo dele? Sabia qual a próxima missão? Foi a desobediência dele ao seu tempo, é isso? Viu que Você conseguiu desagradar todo mundo?

Pela visão espírita que tenho da nossa mera existência, eu fico bastante tranquilo. Não há dor. Mas não tem misericórdia, Senhor. Não tenho nada para agradecer neste momento. Se sou julgado dia-a-dia, portanto me permita uma réplica: o Senhor foi bem burrinho nessa. Seria de bom grado admitir isso, erros acontecem, até com o Senhor, que dizem ser infalível. Só assim eu vou ficar menos indignado por aceitar que Você acabou assim com um de nossos heróis.

Ninguém mexe assim com nossos heróis.

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Vacaciones, 6

QUASE DE VOLTA | O Thiago Arantes, velho colega do Grande Prêmio e hoje na ESPN, mandou um texto escrito pelo fluminense Márcio Madeira. O Madeira participou da seleção de O Grande Estagiário 1, foi um dos finalistas, redige bem demais e entende muito de automobilismo. Mas lidou de perto com a hecatombe ocorrida na região serrana do Rio de Janeiro. Reproduzo na íntegra sua crônica que fala por si só.

De um lado, o pesadelo.

Uma madrugada sem dormir, a falta de luz, o alto barulho da chuva vencendo um silêncio de tensão compartilhada. Ta chovendo demais, ta chovendo demais. Pela janela a luz de relâmpagos revela a rua alagada, enquanto o estrondo e o chacoalhar de um carro que tentava escapar revelam o enorme buraco escondido pela água escura. O dia amanhece, os olhos ainda exploram os estragos visíveis, quando o som indescritível de uma avalanche anuncia algo de grandioso acontecendo. O coração dispara, o olhar se volta para a esquerda, e a consciência duvida do que os olhos estão vendo. Todo o morro esta descendo. É muita, muita terra. O entulho some da vista, escondido pelos prédios. Um forte estrondo é ouvido, surge uma gigantesca nuvem de poeira. Não era encosta, não havia falhas na topografia nem tampouco casas em local de risco. É mata nativa, reserva natural. Se ali está desabando, então todo o resto já terá caído.

O pensamento se volta para os amigos que ali residem. Nomes, rostos. Corremos para o telefone. Mudo. Ainda chove forte, mas é preciso ir lá ver. Há lama e destruição por todos os lados, pessoas choram e correm. Na rua anterior um verdadeiro rio impede a passagem, permitindo apenas ver um caminhão dos bombeiros esmagado por entulhos. “Seis bombeiros morreram” – alguém diz, aos prantos. Não era boato. Mais alguns minutos e a chuva para. Podemos chegar mais perto.

Corpos passam em macas o tempo todo, bombeiros perguntam se alguém tem experiência em primeiros socorros ou reanimação. É difícil saber qual a melhor forma de ajudar. Amigos de infância estão debaixo de uma montanha de lama e escombros, onde antes havia belas casas tradicionais. Uma grávida é resgatada enquanto dá à luz um filho morto. Do outro lado da praça, a água cobre carros e pontes, invade o shopping. Pessoas buscam lugares elevados, cachorros nadam a seus lados. Há pânico e informações desencontradas por todos os cantos. “A igreja de Santo Antônio está destruída”, “o teleférico acabou”, “edifício tal está para cair”, “fulano de tal morreu”, “estrada tal está interditada”, “tal bairro não existe mais”.

Uma volta pela cidade começa a dar a dimensão da tragédia, enquanto a luz não volta e não é possível ver os jornais. A coisa foi grande, foi muito grande. Devem estar tentando falar com a gente, querendo notícias. O drama extrapola os limites da zona atingida. Não há como tranqüilizar amigos ou parentes. Voltamos para casa. A comida na geladeira ameaça estragar. É preciso fechar o registro de água, para que a lama e o esgoto não contaminem o que resta na cisterna. É preciso economizar. Há pessoas presas em elevadores, e a luz não voltará em menos de dois dias. A subestação foi afetada, postes caíram, e há fios de alta tensão entre os escombros, onde também há vazamento de gás. O comércio está fechado, hospitais estão isolados e/ou destruídos, não há gasolina. Amigos se reencontram e cumprimentam em silêncio. Não cabe perguntar se está tudo bem, é preciso buscar novas formas de saudação.

O sol se põe, é preciso tentar dormir. Mas como? Bateria do celular começa a acabar, na eterna busca por sinal. Lanternas e velas se esgotam apesar do racionamento. O mundo fica cada vez mais escuro, somos todos cegos. A noite se arrasta no medo de que volte a chover. Um banho rápido e gelado no escuro talvez ajude a passar o tempo e a diminuir um pouco a sensação de angústia e tensão.

O sol torna a nascer. Parentes de vítimas não se afastam dos montes de escombros. Passaram a noite por lá. Não existem ônibus circulando, pessoas caminham dias inteiros. O dinheiro é curto, bancos e caixas eletrônicos não funcionam. Filas se formam nos poucos estabelecimentos que se atrevem a funcionar. A entrada de pessoas é controlada, pois há medo de saques. Os preços se multiplicam, uma única vela pode custar até dez reais. Revolta e tristeza invadem a alma: “há necessidade disso? Já não sofremos o bastante?”.

A presidente está na nossa rua, os helicópteros não param. “A coisa deve ter sido ainda maior do que parece” – pensamos. Ainda sem luz, não temos tanta noção. A cidade se enche de bombeiros, policiais, homens do BOPE, da Guarda Nacional. O Exército também está aqui, é muita gente trabalhando. Na praça ergue-se um hospital de campanha; no Instituto de Educação um IML é improvisado. Um médico pede um pouco de pomada descongestionante, pois o cheiro dos corpos já em decomposição começa a se tornar insuportável, e se espalha por toda a cidade.

Uma grande caixa d’água se rompe num bairro afastado. A notícia ganha proporções catastróficas no boca-a-boca de uma população apavorada. Interfone e telefone tocam ao mesmo tempo. “Corre que a represa rompeu, vai inundar a cidade inteira, a água vai chegar até o segundo andar”. Bombeiros apavorados sobem em caminhões, doentes são transportados para os andares superiores de hospitais improvisados, pessoas são pisoteadas e atropeladas, ou brigam ferozmente por uma vaga nos caminhões que abandonam o centro à toda velocidade.

Não haveria volume d’água na maior represa da cidade que fosse suficiente para causar nem um milésimo do que era alertado, mas pouca gente consegue pensar calmamente quando até mesmo os militares estão em pânico. Alarme falso, terror real.

De outro lado, a esperança.

Caminhões com donativos começam a chegar um após o outro, enquanto pessoas surgem de todas as cidades dispostas a ajudar. Os telefones começam a tocar timidamente, ainda é difícil conseguir contato. Do outro lado da linha vozes amigas choram de alívio a cada alô.

Boas notícias surgem, de vez em quando. Existem sobreviventes, algumas pessoas são resgatadas com vida. Em Friburgo, no bairro de Duas Pedras, o morador da casa mais alta, próxima à Fundação Getúlio Vargas, sente a estrutura de sua casa balançar e sai de imediato. Desce a rua no escuro e debaixo de chuva dando o alarme do desabamento iminente aos seus vizinhos. O morro desaba, mas nenhuma vida se perde ali. Herói da vida real, prefere o anonimato.

O trabalho no voluntariado consola e renova. A sensação inigualável de servir e ser útil, a admiração por ver pessoas de fora trabalhando tanto ou mais que nós, os interessados. Descarregar um caminhão dá muito mais trabalho do que parece, descobrimos isso rapidamente. E imaginar que, em algum lugar do Brasil, este mesmo trabalho estafante foi feito com alegria por pessoas que nem sequer nos conhecem…

A ajuda material é, a um só tempo, útil e simbólica, pois carrega em si uma mensagem invisível. Sacia as necessidades do corpo, cura as doenças da alma. Uma garrafa d’água não é só uma garrafa d’água. É uma declaração de amor e de apoio, de alguém que saiu de casa e foi comprar, levou para o posto de coleta, onde pessoas com amor carregaram o caminhão. É, portanto, material sagrado. É sacrifício do povo, é atitude, é gente comendo menos para que outros possam comer alguma coisa. É carinho materializado.

Nos hemocentros, filas se formam com doadores. Doadores de sangue, doadores de vida. Gente que literalmente deseja dar parte de si mesmo ao próximo. Impossível se manter o mesmo diante de tantas forças, sejam elas tristes ou bonitas. De certo modo, é justo dizer que todos nós morremos debaixo do lamaçal. Não somos mais os mesmos, nem temos o direito de ser.

A consciência sobre as bênçãos e responsabilidades de simplesmente estar vivo se amplia indefinidamente. Continuamos aqui, por algum motivo. Estamos sendo abraçados, protegidos. É preciso justificar isso, é preciso trabalhar, honrar os que se foram, e os que estão ajudando. A vida nos deu uma página em branco. É preciso reconstruir, e fazer uma cidade melhor e mais segura do que antes. É preciso renascer, tornar-se uma pessoa melhor e menos alienada, abandonar o superficial e voltar os olhos ao essencial. É preciso ajudar a quem precisa, dividir o que se tem. Há que brotar vida verdadeira desta mesma lama, adubada por tantos amigos inesquecíveis que por lá pereceram.

A luz voltou, e os jornais falam em tragédia anunciada. Meia verdade. Em Petrópolis e Teresópolis choveram 130 mm. Em Friburgo foram 182. Em algumas cidades a tragédia de fato se concentrou em bairros periféricos e casas em locais de maior risco. Em Friburgo, reservas naturais e mansões desabaram da mesma forma. Casas de classe média alta, a 200 metros de encostas, foram soterradas. Não houve distinção. Falar em drenagem ou muros de contenção diante de tamanha potência é fazer piada de mau gosto. Útil, sim, seria um plano diretor livre de demagogias, e um sistema de alarme eficiente, como o herói anônimo de Duas Pedras.

Chega o domingo, e com ele os primeiros raios de sol. Faz um dia bonito, apesar da poeira, e quando começa a anoitecer o céu assume uma coloração azul deslumbrante. Uma leve brisa sopra pelas ruas desertas, e, por um instante, as sirenes dão uma trégua. Fecho os olhos por alguns segundos torno a abri-los. Perco o olhar nas estrelas e me deixo levar. Em minha cabeça ouço nitidamente a voz vigorosa de Renato Russo cantando.

“Mas é claro que o sol vai voltar amanhã…”

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A curiosidade que mata

SÃO PAULO | Vai uma crônica, destas que escrevo de tempos em tempos — agora muito mais raramente —, aproveitando os últimos dias de folga. Digamos que a situação tem traços de realidade, evidentemente exagerada em muitos pontos, bem como o fim da história. O nome da personagem é Evelyn. Aleatório, claro.

A curiosidade que mata

Era na cozinha que Evelyn matava o tempo até que berrasse o ringtone da cantora pop mais falada dos últimos dias para saber das novidades alheias trazidas em primeira-mão pelas amigas (e também amigos; fofoca não se furta ao gênero). Gostava da simplicidade do macarrão, afinal o cozimento da massa e a apuração do molho de tomate (nada destes embutidos ou enlatados) lhe permitiam ficar os minutos a mais necessários para se surpreender, debater e assentir as notícias. Foi picando o manjericão, coisa que a mãe nunca aconselhara, que o celular tocou.

Largou a faca daquelas que corta tudo, menos as meias-calças que nunca desfiam, e com pedaços verdes da hortaliça na mão direita que bem recebeu nova ligação de Roberta, a terceira ou quarta do dia. O longo oi foi interrompido quando a amiga veio com a voz exasperada.

— Você não sabe da última? — e parou por um instante. — Ou sabe?
— A última de agora vira a penúltima dos próximos minutos — filosofou Evelyn, esperando que aquele tom de surpresa e mistério se quebrasse de início.
— Talvez você não saiba, então — sentenciou Roberta.

Evelyn corou e por um instante preocupou-se. Antes que Roberta perguntasse, sentou ali mesmo no sofá, colocando uma almofada no colo.

— Conta logo, menina.
— Estou passada — revelou Roberta.
— Então foi feio o negócio — deduziu Evelyn.
— Estou passada que a Luciana ou até mesmo o Fernando não tenham ligado pra contar.
— Como é que o Fernando sabe disso antes de mim? — e Evelyn indignou-se, atirando a almofada longe, com alguns pedaços de manjericão juntos.
— Acho que o Paulo falou pra ele — disse uma Roberta meio instigante e provocadora.
— O… o Paulo?

Pode-se dizer que Evelyn não ia muito com a cara de Paulo, assim, numa definição mais eufemística. Paulo foi durante anos, por não décadas, seu grande amor. Colega de escola, quase vizinho, aquela coisa toda de quem nutre um amor de criança e adolescência que foi correspondido só aos 22, por poucos dias, até descobrir, sem que ninguém lhe contasse, que Paulo sempre preferiu a irmã, Claudia. Triste, quase mortal, foi o dia em que Claudia e Paulo apareceram oficialmente como namorados. Evelyn sentiu-se perfurada por aquela faca. O tratamento fraternal nunca mais foi o mesmo. Passou a nutrir ódio visceral por Paulo, ainda que nunca tivesse sido explícito em sua frente. Restou, como consolo, aproximar-se aos poucos do gêmeo Fernando.

O intento amoroso não teve muito êxito, mas Evelyn preferiu usar Fernando como fonte — principalmente do relacionamento do irmão dele com a irmã dela —, assim como todos os demais amigos. A derrota no amor fez dela uma desconfiada congênita. Tinha de saber tudo de todos para não se passar por enganada.

— Nada mais natural que o Paulo tivesse contado pro Fernando, né? — e Roberta enrolou a mão livre no cabelo, compondo rodamoinhos que lembravam chifres de uma diaba em ação.

Evelyn sentia mais um golpe e seu “me conta agora” já denotava certa tensão. Roberta provocou, acenando para alguém que estava ali perto.

— Nem mesmo a Claudia chegou a falar que… — e Roberta foi interrompida por um não ecoante.
— A Claudia ainda não chegou. Estou sozinha em casa. E você sabe muito bem que ela não ia me falar nada de nada.
— Ah, ia sim. Até porque também envolve o Paulo.

Por um instante, Evelyn refletiu que se tratava de uma brincadeira. Mas Roberta não estava lá num bom dia, pensou, até porque os telefonemas anteriores mostravam uma moça mais preocupada em descobrir meios de conseguir o número do rapaz com quem havia ficado na balada do fim de semana — que ela mal lembrava a fisionomia, dado o uso obstinado e constante de uma vodca de qualidade duvidosa. Tentou trazer o assunto à tona para reverter a situação.

— Pois eu tenho um amigo que me ligou há pouco e sabe do saradinho que você beijou — mentiu Evelyn.
— Diante do que aconteceu, bela bosta — respondeu Roberta.

Bela bosta era uma definição da cara de Evelyn. Cônscia de que havia perdido a batalha, implorou pela revelação.

— Pelamordedeus, Roberta, me conta, então. Para eu ser a última a saber é porque vocês estão me poupando de algo…
— Você concorda que coisa ruim chega sempre antes, não?
— Então não é coisa ruim — e Evelyn tentou um suspiro que durou pouco.
— Bom, depende do ponto de vista.
— Ruim é ruim para todo mundo.
— Não seja extremista. Você já terminou o macarrão?
— Está cozinhando lá, e vou deixar cozinhar demais se você não me disser.
— Então ligo depois porque sua mãe ficaria muito puta se você jogasse fora de novo.

Roberta desligou e Evelyn se enfureceu. O molho já tomava conta da casa e podia-se ouvir seu borbulhar pedinte daquele manjericão que restava na tábua de madeira. Pouco importava. Evelyn buscou o telefone de Luciana. Deu caixa postal. Tentou o de Fernando. Reclamou quando não foi atendida no segundo toque. Terceiro, quarto, e, enfim, a voz.

— Oi.
— Como oi? — veio uma Evelyn agoniada.
— Oi é breque de burro, como diria meu pai — brincou Fernando. — Olá está bom?
— Vamos pular essa parte.
— Não, vamos por partes. Você queria que eu atendesse como? Não seria muito legal se eu falasse “o que você quer, sua vaca?” — ironizou.
— Depois eu comento sua falta de educação. Vamos, me diga.
— Digo.

Evelyn subiu um degrau a mais na escala do nervosismo. Pegou a outra almofada que viu por perto e jogou-a de novo no sofá.

— Õ sem-graça, que tal você me contar?
— Você poderia ser mais específica?
— Odeio quando você faz isso, Fernando. Igualzinho ao Paulo. Odiável.
— Foi para isso que você me ligou? — e Fernando falou num tom desafiador que logo levaria ao encerramento da conversa. Ouviu Evelyn soltar mais umas abobrinhas queixantes e, de fato, desligou o telefone. Foi poupado pela saraivada de xingamentos que deixaria Dercy Gonçalves de peruca em pé.

Evelyn tentou ligar para Luciana de novo. Em vão. Hesitou em apertar o botão que chamava Roberta. Preferiu, angustiada, terminar a obra culinária. Naquele estado, não demorou a cortar a ponta do indicador da mão esquerda na quarta ou quinta vez em que fazia do manjericão já picado quase farofa. Retomou as más palavras em seu torpor. Nem mesmo percebeu que o celular soava. Só quando parou de reclamar é que ouviu a canção em seu fim. Com o papel-toalha estancando o sangue, correu. Não deu tempo, e no visor do celular apareceu a chamada perdida de Luciana.

Retornou de pronto. Começou a andarilhar pela casa. Ficou esbaforida quando viu que a ligação não completou. Xingou a operadora. A operação foi repetida. Novamente, rede ocupada. Xingou a operadora, a fabricante do celular, quem havia comprado a faca que cortou seu dedo, o agricultor que cultivou o tomate e o manjericão e até a si mesma, por ter decidido fazer naquele momento tão importante aquele macarrão que já se encontrava mais papa que o sumo pontífice.

Evelyn já era a imagem do desespero. Apelou para o telefone de casa. Mas nem se lembrou que os pais haviam bloqueado as ligações para celulares quando não estavam em casa — fruto do uso descontrolado de Evelyn para suas conversas edificantes. Claro que ela xingou os pais, os avós e toda a geração anterior que os puseram no mundo. Evelyn sentiu-se amaldiçoada, azarada e pôs tudo aquilo que sentia para fora sem que ninguém pudesse lhe ouvir. Voltou para a cozinha e enrolou um pouco mais de papel no dedo que ainda via uma fresta de hemácias ululantes por uma vida fora das veias quentes. Jogou com tamanha displicência o manjericão no molho que o fez espirrar, o manjericão e o molho, pelo fogão. Caídos no bocal do fogo que só parecia aumentar, sujaram a peça redonda metálica. Evelyn xingou Murphy.

A garota correu para pegar o pano da pia e tentar reverter semelhante porcaria, e no que foi tirar a panela do molho para colocá-lo em outra boca, eis que o celular tocou com força. Era Roberta.

— Agora você vai me falar — e Evelyn nem mais escondia seu desejo reprimido de gritar.
— Mas eu não acredito que você ainda não sabe — falou Roberta, debochante.
— Eu não sei, Roberta — retrucou Evelyn, sílaba por sílaba, tal como engenheiro de equipe de F1 a piloto brasileiro. — E acho que você vai ficar mais curiosa pelo que já aconteceu comigo e pelo que pode acontecer. Então me fale já o que aconteceu.
— Ah, Evelyn, este seu joguete é tão arcaico, soa pueril e pouco inteligente, até. Sei que não aconteceu nada, diferente do que aconteceu com Paulo e…

Evelyn não esperou que Roberta terminasse. Arremessou, fula, o celular para o alto. Desgraçadamente, o aparato bateu no teto e caiu na caldeira do macarrão, jorrando água quente que voou em razoável quantidade no braço da garota. Gritou, óbvio, quase infartada, com as dores das queimaduras e a da cabeça por, depois de tudo, mal saber do que se tratava a tal novidade. Rangeu os dentes, continuou na cozinhava, mas queria correr em disparada para que sua descoberta fosse satisfeita. É que o incômodo e a vermelhidão já lhe eram maiores, daí fez-se acéfala. Pegou gelo, pôs a pedra para aliviar, viu ali o fogão sujo do molho esturricado, correu para desligar o fogo, e, trêmula, tropeçou e caiu atabalhoadamente sobre o eletrodoméstico.

Claudia entrou em casa tempo depois esfuziante e esbaforida, com um envelope em punho. Enquanto Paulo fechava a porta, gritou pelo nome da irmã. Sentiu um cheiro forte e continuou a chamar por Evelyn, sem obter resposta. Antes de entrar na cozinha, falou alto.

— Evelyn, querida, você já deve saber. Mas está aqui. Estou grávida.

E Claudia petrificou-se quando viu a irmã no chão, desfalecida, vermelha, pelas queimaduras e pelo molho de tomate que lavava o chão ao lado daquele macarrão grudado que servia de embrulho para o celular que já não tinha mais vida, tal como aquela moça que só queria saber o que havia se passado com a irmã e com seu desafeto que foi seu grande amor, e que praticamente cometeu suicídio por não controlar aquela que foi sua principal característica.

Pois Evelyn não conseguiu matar sua curiosidade. Morreu dela.

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